O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e se destaca como o segundo maior transplantador em números absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos. Apesar disso, ainda há um longo caminho a percorrer para atender à demanda de órgãos e tecidos da nossa população. Campanhas como “Uma conversa pode ser a peça que falta”, da Santa Casa de Porto Alegre, são essenciais para conscientizar as famílias de que um doador pode salvar até oito vidas.
Analisar apenas os números absolutos elevados não é suficiente para compreender a real situação do Brasil em relação a transplantes de órgãos. Considerando as grandes dimensões territoriais do país e sua população de quase 215 milhões de pessoas, esses números são, em parte, explicáveis. Sem dúvida, já tivemos avanços significativos, principalmente graças a profissionais de saúde incansáveis que há décadas se dedicam a essa causa. Eles superaram as barreiras de um país com tantas dificuldades estruturais para desenvolver um programa de doação de órgãos tão complexo. Mesmo assim, mais de 80 mil pessoas ainda aguardam um órgão.
A lista de espera para transplantes não segue uma ordem cronológica de preferência. Diversos critérios são considerados para determinar a prioridade dos receptores, incluindo compatibilidade sanguínea, imunológica e de tamanho, além da urgência clínica. Pacientes com risco iminente de morte recebem prioridade, conforme previsto em lei. Vale ressaltar que, no Brasil, a lista de espera é única, abrangendo tanto pacientes do SUS quanto da rede privada.
Infelizmente, nem todas as pessoas podem ser doadoras. Potenciais doadores de órgãos e tecidos passam por uma avaliação rigorosa para evitar a transmissão de doenças e germes multirresistentes ao receptor, além de garantir que os órgãos doados sejam saudáveis. Existem três tipos de doadores: vivos, em parada cardiorrespiratória e em morte encefálica. Doadores vivos podem doar alguns tecidos, órgãos (como o rim) ou parte de órgãos (como o fígado e o pulmão). Doadores em parada cardiorrespiratória podem doar córneas e pele. Já doadores em morte encefálica podem doar múltiplos órgãos. A idade não é uma contraindicação absoluta para a doação, mas pode influenciar a qualidade dos órgãos. Da mesma forma, o tamanho do doador pode ser um fator limitador quanto às possibilidades de receptores, nos casos de estaturas extremas.
Com os avanços da medicina nas últimas décadas, a doação de órgãos tornou-se uma realidade para diversos órgãos, incluindo coração, pulmões, fígado, pâncreas, rins e intestino. Além disso, tecidos como córneas, pele, ossos e valvas cardíacas também podem ser doados. Outra opção é a doação de membrana amniótica por doadores vivos, que envolve a retirada da placenta logo após o nascimento da criança por cesárea. Apesar de ser o órgão mais transplantado, o rim ainda possui a maior lista de espera. Coração e pulmão, por outro lado, são os menos ofertados e aproveitados, devido à sua rápida deterioração durante a internação hospitalar, o que os torna frequentemente inutilizáveis no momento da doação.
Em busca de doadores
No Brasil, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) opera com base em Organizações de Procura de Órgãos (OPOs), equipes especializadas compostas por enfermeiros e médicos. Essas equipes desempenham um papel crucial no processo de doação, auxiliando na busca por doadores, no diagnóstico de morte encefálica, na realização dos exames necessários, no contato com a família do doador e na intermediação com a Central de Transplantes do Estado. No Rio Grande do Sul, existem seis OPOs, cada uma responsável por uma região específica. A OPO 1, localizada dentro da Santa Casa, atua em uma área que abrange aproximadamente 30 hospitais da região metropolitana de Porto Alegre, incluindo o Dom João Becker.
Apesar de o transplante ser parte da minha rotina e um assunto bem estabelecido para mim, reconheço plenamente a imensa dificuldade e dor envolvidas em autorizar a retirada de órgãos de um familiar recém-falecido. É um momento angustiante, marcado pela perda de um filho, uma irmã, um pai ou uma mãe. No entanto, a decisão de doar órgãos é um ato nobre, de empatia e que pode transformar a vida de inúmeras famílias. Converse com seus familiares sobre a doação e compartilhe seu desejo de ser doador, pois “Uma conversa pode ser a peça que falta” para salvar vidas!
*Dr. Jonas Pereira é cirurgião torácico do Hospital Dom João Becker. O médico foi o convidado do programa Papo de Saúde desta semana.













