A relação dos campeões municipais de Gravataí atravessa quase nove décadas e ajuda a compreender não apenas a história do futebol, mas também as transformações sociais, econômicas e urbanas da cidade. A cronologia começa em 1937, quando o Paladino conquistou o primeiro de três títulos consecutivos. Fundado em 20 de abril de 1927, o Esporte Clube Paladino tornou-se a primeira grande potência do futebol gravataiense. O Alvi-Rubro, fundado em 7 de maio de 1933, foi seu principal adversário e ajudou a construir uma das maiores rivalidades esportivas da história do município.
Entre 1937 e 1958, o futebol de Gravataí foi praticamente dividido entre Paladino e Alvi-Rubro. Dos campeonatos com resultados conhecidos nesse período, o Paladino venceu treze, o Alvi-Rubro cinco e o Cerâmica um. Naquele tempo, os clubes não representavam apenas equipes esportivas. Eram espaços de convivência, bailes, festas, encontros familiares e construção de identidades. Ser paladinense ou alvi-rubro fazia parte da vida social da cidade.
O Paladino foi campeão em 1937, 1938, 1939, 1944, 1948, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, 1956, 1957, 1958, 1963 e 1964. São quinze títulos municipais, número que ainda coloca o clube como o maior campeão da história de Gravataí, mesmo estando afastado das principais competições de futebol de campo há várias décadas. Poucos clubes conseguiram construir uma trajetória tão vitoriosa em um período relativamente curto.

Durante o período do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, Gravataí era administrada pelo prefeito Ary Tubbs. Apesar do contexto internacional, a interrupção do Campeonato Municipal não ocorreu propriamente em razão da guerra. A competição deixou de ser disputada por decisão do prefeito, motivada pelas constantes brigas e pelos conflitos envolvendo torcedores e integrantes do Paladino e do Alvi-Rubro. A rivalidade entre os dois clubes havia ultrapassado os limites do campo, provocando desentendimentos que preocupavam as autoridades municipais. Assim, os anos de 1940, 1942 e 1943 devem ser registrados como temporadas em que não houve campeonato devido à suspensão determinada pelo Executivo Municipal em consequência dos conflitos entre as duas agremiações.
O Alvi-Rubro conquistou seu primeiro título em 1941. Voltou a ser campeão em 1945, 1946, 1947 e 1949, além de conquistar um histórico tetracampeonato entre 1959 e 1962. A rivalidade entre Paladino e Alvi-Rubro chegou ao ponto máximo em 7 de agosto de 1963, quando o prefeito José Linck decretou feriado municipal para que a população pudesse acompanhar a decisão do campeonato. O Paladino venceu aquele campeonato e repetiu a conquista em 1964.
Em 1950 surgiu o Cerâmica Atlético Clube, criado por trabalhadores ligados à indústria cerâmica. Sua entrada transformou a antiga rivalidade entre Paladino e Alvi-Rubro em uma disputa entre três grandes forças. No dia 9 de maio de 1958, Paladino, Alvi-Rubro e Cerâmica fundaram a Liga Gravataiense de Futebol, dando uma organização mais formal ao campeonato e permitindo que o município tivesse uma entidade responsável por representar seus clubes.
A partir do final dos anos 1960, o campeonato mudou de característica. Paladino e Alvi-Rubro perderam espaço no futebol de campo, enquanto surgiram clubes relacionados aos bairros, às vilas, às comunidades e ao mundo do trabalho. Veterano, ASES/Synteko, Vila Branca, 13 de Maio, Vera Cruz, Gravataiense, Acadêmico, Rodoviário e Canarinho passaram a representar a nova realidade da cidade.
Essa transformação coincidiu com o processo de industrialização e crescimento urbano de Gravataí. A instalação de empresas, a construção da Freeway, a implantação do Distrito Industrial e o surgimento de novos bairros modificaram profundamente o município. O futebol acompanhou essa transformação. Deixou de ser dominado pelos clubes tradicionais do Centro e passou a expressar também a identidade das comunidades operárias e dos bairros que cresciam ao redor das fábricas. O título conquistado pela ASES, ligada à Synteko, em 1970, é um dos principais símbolos dessa relação entre futebol e industrialização.
Nas décadas de 1970 e 1980, o campeonato apresentou uma grande diversidade de vencedores. Vila Branca, 13 de Maio, Vera Cruz, Canarinho de Santo Antônio da Patrulha, Gravataiense, Acadêmico, Rodoviário, Canarinho de Gravataí, Três Estrelas, Santos, Bagé e Cerâmica conquistaram títulos. Essa variedade mostra como o futebol municipal havia se espalhado pelas diferentes regiões e comunidades.
A partir da década de 1980, duas novas potências começaram a se destacar. O Grêmio Esportivo Três Estrelas foi campeão em 1982, 1983, 1989, 1990, 1991, 1992 e 1997. O Esporte Clube Vila Branca, que já havia conquistado os campeonatos de 1971 e 1972, voltou a vencer em 1985, 1995, 1996, 1998 e 1999. Posteriormente, o Vila Branca ainda foi campeão em 2015 e 2019, chegando ao total de nove títulos municipais.
Um dos capítulos mais importantes da história do futebol gravataiense aconteceu em 2007, quando o Cerâmica Atlético Clube se profissionalizou, tornando-se a primeira e, até hoje, única equipe profissional da história de Gravataí. A mudança marcou uma ruptura com a tradição exclusivamente municipal do clube. A partir daquele momento, o Cerâmica deixou o Campeonato Municipal para representar Gravataí nas competições oficiais do futebol profissional gaúcho.
No século XXI, o campeonato municipal tornou-se ainda mais equilibrado. União da Morada do Vale II, Palmeirinha, Gravataiense, Bagé, Barnabé, Três Estrelas, Real Madri, Palmeiras, América e Vila Branca dividiram as conquistas. Em vez de uma única hegemonia, o futebol gravataiense passou a apresentar ciclos menores de domínio e uma maior renovação entre seus campeões.
Em 2020 e 2021, o campeonato não foi disputado em razão da pandemia. O retorno aconteceu em 2022, quando o Três Estrelas venceu o Caveirense nos pênaltis e chegou ao seu décimo segundo título. O Bagé foi campeão em 2023 e novamente em 2024, alcançando o hexacampeonato. Em 2025, o Kazenco derrotou o Três Estrelas por 2 a 0 no Estádio Vieirão e conquistou seu primeiro título municipal.
Algumas informações da cronologia ainda precisam ser investigadas. O ano de 1965 deve ser tratado com cautela, pois os registros históricos do Cerâmica reconhecem suas conquistas de 1955, 1966, 1987 e 1988, sem mencionar um título em 1965. Em 1967 não houve campeonato e, para 1968, permanece a indicação de que não existe um campeão confirmado.
Também é importante diferenciar o Canarinho de Santo Antônio da Patrulha, campeão em 1975 e 1976, do Esporte Clube Canarinho de Gravataí, vencedor em 1981. Em relação a 2024, o campeão da Categoria Especial de Amadores foi o Esporte Clube Bagé, e não o Esporte Clube Canarinho.
O quase centenário Paladino permanece na liderança histórica, com quinze títulos. Em seguida aparecem o Três Estrelas, com doze; o Alvi-Rubro e o Vila Branca, com nove cada; o Bagé, com seis; o Gravataiense, com cinco; o Cerâmica, com quatro; e o União da Morada do Vale II, com três conquistas.
1937 – Paladino
1938 – Paladino
1939 – Paladino
1940 – Campeonato cancelado por conta da II Guerra
1941 – Alvi-Rubro
1942 – Prefeito cancelou o Campeonato
1943 – Prefeito cancelou o Campeonato
1944 – Paladino
1945 – Alvi-Rubro
1946 – Alvi-Rubro
1947 – Alvi-Rubro
1948 – Paladino
1949 – Alvi-Rubro
1950 – Paladino
1951 – Paladino
1952 – Paladino
1953 – Paladino
1954 – Paladino
1955 – Cerâmica
1956 – Paladino
1957 – Paladino
1958 – Paladino
1959 – Alvi-Rubro
1960 – Alvi-Rubro
1961 – Alvi-Rubro
1962 – Alvi-Rubro
1963 – Paladino
1964 – Paladino
1965 – Cerâmica AC
1966 – Cerâmica AC
1967 – Não houve Campeonato
1968 – Sem registro confirmado
1969 – EC Veterano
1970 – ASES (Synteko)
1971 – EC Vila Branca
1972 – EC Vila Branca
1973 – SE 13 de Maio
1974 – GE Vera Cruz
1975 – Canarinho FC
1976 – Canarinho FC. O time representava o Distrito de Imbiruçu.
1977 – SE Gravataiense
1978 – SE Gravataiense
1979 – SCB Acadêmico
1980 – SE Rodoviário
1981 – EC Canarinho
1982 – GE Três Estrelas
1983 – GE Três Estrelas
1984 – Santos FC
1985 – EC Vila Branca
1986 – EC Bagé
1987 – Cerâmica AC
1988 – Cerâmica AC
1989 – GE Três Estrelas
1990 – GE Três Estrelas
1991 – GE Três Estrelas
1992 – GE Três Estrelas
1993 – EC Palmeirinha
1994 – EC Bagé
1995 – EC Vila Branca
1996 – EC Vila Branca
1997 – GE Três Estrelas
1998 – EC Vila Branca
1999 – EC Vila Branca
2000 – EC Palmeirinha
2001 – SE Gravataiense
2002 – União FC (Morada do Vale II)
2003 – União FC (Morada do Vale II)
2004 – EC Bagé
2005 – EC Barnabé
2006 – GE Três Estrelas
2007 – União FC (Morada do Vale II)
2008 – EC Real Madri
2009 – EC Real Madri
2010 – Palmeiras
2011 – GE Três Estrelas
2012 – EC Bagé
2013 – GE Três Estrelas
2014 – SER América
2015 – EC Vila Branca
2016 – SE Gravataiense
2017 – SE Gravataiense
2018 – GE Três Estrelas
2019 – EC Vila Branca
2020 – Não disputado (pandemia)
2021 – Não disputado (pandemia)
2022 – GE Três Estrelas
2023 – EC Bagé
2024 – EC Bagé
2025 – Kazenco FC
*Amon da Costa é historiador, professor e escritor. Na produção deste artigo, contou com a colaboração do estudante de Jornalismo João Dihl.














