Talvez orgulho nerd não seja sobre saber tudo de um universo fictício. Nem sobre ter a carta rara da coleção. Nem sobre discutir cronologia de filmes na internet. Tampouco sobre zerar o game mais incrível já feito.
Talvez orgulho nerd seja outra coisa. Talvez ele nasça num quarto simples, iluminado pela luz de uma televisão de tubo numa tarde silenciosa, assistindo desenhos épicos com enredos e mensagens poderosas; nasça no som de um videogame sendo ligado depois da escola com tempo contado (ou contador da TV ligado)… Num caderno de linhas que sobrou da escola cheio de desenhos malfeitos de heróis inventados, mas que com orgulho era criado e expandido.
Talvez estivesse num boneco barato comprado em banca, nada articulado, com acabamentos ruins, sem valor algum para colecionador, mas que nas mãos de uma criança se tornava mais poderoso do que qualquer efeito especial de Hollywood. Podiam salvar cidades inteiras antes do jantar. Viajar entre dimensões numa tarde de domingo. Morrer heroicamente e voltar no dia seguinte para uma nova aventura criada dentro de um quarto qualquer. Por que nunca foi sobre o brinquedo. Era sobre acreditar. E nerds acreditam com uma força absurda.
Orgulho nerd era rebobinar fita VHS. Era esperar o desenho passar no horário certo porque o streaming sequer existia. Era decorar a abertura de anime que passava no canal aberto. Era ler e reler gibis ganhos em promoções improváveis, daqueles que vinham junto de produtos cotidianos e pareciam insignificantes para qualquer adulto, como uma marca de curativos famosas ou uma promoção de refrigerante. Mas não para uma criança. Para ela, aquilo era um portal. Lia uma vez. Depois outra. E outra. Até decorar as falas. Até conhecer cada quadro de memória.
Talvez seja por isso que certas memórias nunca desaparecem. Como a primeira vez no cinema. As luzes apagando. O silêncio da sala. E então a história de um homem mordido por uma aranha, descobrindo poderes que mudariam sua vida para sempre. Naquele instante, não era só um filme. Era uma criança entendendo, talvez pela primeira vez, que alguém comum também podia ser herói. Não pelas teias. Nem pelo uniforme. Mas pela escolha de fazer o bem.
E talvez seja aí que muita gente nunca tenha entendido a cultura nerd. Ela nunca foi apenas escapismo. Enquanto muita gente via “desenhos”, “gibis” e “filmes de herói”, algumas crianças estavam aprendendo valores. Responsabilidade. Coragem. Empatia. Bondade. Aprendendo que gentileza não era fraqueza. Que proteger os outros importava. Que imaginar também era uma forma de existir. E entre tardes diante da TV de tubo, episódios gravados em VHS, cadernos recheados de personagens inventados, leituras de livros e gibis e muitas brincadeiras com brinquedos desarticulados, nasciam pequenos criadores e grandes criações.
E talvez orgulho nerd seja justamente isso: não sentir vergonha da criança que acreditava. Da criança que transformava o quarto em campo de batalha. Que imitava poses de heróis na frente do espelho. Que criava universos inteiros com tão pouco. Por que, no fim das contas…
Essa criança era eu. E acredito que, para muita gente, também era.
*Andrei Viana é pedagogo e produtor de conteúdos relacionados à cultura geek. Criador do canal do YouTube PadaYou, também participa da programação e realiza a cobertura de eventos do segmento. No Instagram @1padayou, divulga diversos materiais sobre o universo nerd.















