Por alguns dias, no começo de junho, tive na tela a inteligência artificial mais avançada que o mundo já viu. Comecei a usar no dia do lançamento. No dia 12 acordei para dar os retoques finais num sistema que eu vinha construindo, liguei o computador, abri o terminal, e a mensagem já estava ali, na minha cara: o acesso tinha sido cortado pelo governo dos Estados Unidos. Motivo: segurança nacional. Fiquei possesso.
Até aquele dia, esse tipo de medida era coisa reservada a terroristas, a traficantes de armas, a inimigos de guerra. Agora ela caía sobre um programa de computador. Sobre uma inteligência artificial que, poucas horas antes, eu estava usando para trabalhar.
A ferramenta se chama Fable 5, da Anthropic, uma das empresas de inteligência artificial mais valiosas do planeta, avaliada em quase um trilhão de dólares. E o tamanho dessa reação diz tudo. Durante séculos, o país mais forte foi o que tinha as armas mais poderosas, da espada ao canhão, do canhão à bomba nuclear. Hoje surgiu uma arma nova, e ela não dispara, não explode, não faz barulho. É feita de código.
Essa inteligência faz algo que até outro dia era ficção de cinema. Ela entra em qualquer sistema de computador e acha as falhas escondidas, aquelas portas que ficaram destrancadas por anos sem ninguém reparar. Um especialista honesto usa isso para fechar o buraco antes de o ladrão entrar. Agora pense no contrário. Pense em alguém recebendo, em segundos, a planta com todas as portas e janelas abertas dos bancos, dos hospitais, das redes de energia, dos celulares, dos sistemas inteiros de um país. Não precisa entender de tecnologia para sentir o tamanho do estrago.
Foi por isso que os Estados Unidos reagiram como reagiriam diante de uma arma de verdade. Proibiram a empresa de entregar esse poder a qualquer estrangeiro, até aos próprios funcionários nascidos fora do país. É o que um país faz com o seu arsenal mais secreto: não deixa sair. Só que dessa vez a arma não estava trancada em nenhum bunker. Estava na minha tela, e dias antes qualquer um com internet podia abrir.
A velocidade era de assustar. Eu dava um punhado de comandos e ela programava, caçava os próprios erros e entregava pronto o que costuma me custar dias. Foi assim que nasceu o Consultór.I.A, um sistema que cuida da agenda, do financeiro e do patrimônio de uma clínica, percebe sozinho quando algum número sai do lugar e ainda chama de volta o paciente antes de o consultório notar a falta. Eu já tinha imaginado uma ferramenta dessas na minha cabeça. Mas sentir esse poder na mão foi uma sensação muito louca, e um tanto assustadora. O que ela faz para construir é exatamente o que dá medo quando alguém usa para destruir.
E é por isso que essa história chega em você, mesmo que você nunca tenha aberto um programa desses na vida. O mundo está rachando entre quem tem acesso a essa inteligência e quem fica de fora olhando. Antigamente se brigava por território, por petróleo. Agora se briga por inteligência artificial, e é ela que vai dizer quem manda nas próximas décadas.
No fim de junho, os Estados Unidos voltaram atrás e o Fable 5 foi religado. Mas não pense que a porta se escancarou. Ele voltou apenas dentro dos planos pagos, e só até o dia 12 de julho. Passada essa data, continuar usando custa caro, cobrado conforme o uso, a um valor que mantém a ferramenta longe do bolso de quase todo mundo. A trava saiu da mão do governo e foi parar no preço. E nesse tabuleiro o Brasil, por enquanto, assiste de fora, sem lugar na mesa onde essas regras estão sendo escritas.
Aquela tela apagada na manhã do dia 12 não foi defeito técnico. Foi o primeiro tiro de uma guerra que não usa bala. E o som desse tiro não é explosão nenhuma. É o silêncio de um computador sendo desligado a milhares de quilômetros daqui, decidindo o que você vai poder fazer amanhã, sem nunca ter perguntado a sua opinião.
*Nelmo Ricalde é mestrando em Inteligência Artificial Aplicada a Empresas pela American Global Tech University (AGTU) e especialista em Transformação de Negócios com IA Generativa / Faculdade HUB. É o fundador da Zuvora – Agência de IA e Marketing de Performance, criador da comunidade A Nova Inteligência e palestrante oficial AI Summit Brasil.















