De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, cerca de nove milhões de brasileiros convivem com algum tipo de doença do coração. Considerando apenas o Rio Grande do Sul, a estimativa é de que mais de 650 mil gaúchos enfrentem condições crônicas relacionadas à insuficiência cardíaca, ao infarto ou a outras doenças cardiovasculares. Conhecer o próprio organismo e atuar na prevenção é fundamental para quem deseja ter qualidade de vida e longevidade.
O coração adoece, na maioria das vezes, em decorrência de alterações das artérias e da sobrecarga de trabalho. Estudos com centenas de milhares de pessoas mostram que o risco vem de fatores que conseguimos controlar. Um dado animador: mesmo quem herdou genes “ruins” pode reduzir em quase metade a probabilidade de doenças quando cuida dos hábitos. Genética não é sentença.
Um dos fatores a controlar é a pressão alta. Conhecida como uma condição “silenciosa”, ela não provoca sintomas claros e a pessoa pode não perceber que o problema está avançando. Imagine uma mangueira com pressão alta o tempo todo: a parede da artéria vai endurecendo, enquanto o coração, que bombeia o sangue, precisa fazer força extra. A hipertensão aumenta o risco de infarto, derrame, insuficiência cardíaca, problemas nos rins e até perda de memória. A nova diretriz brasileira de 2025 tornou a classificação mais rigorosa: hoje, uma medição de 12 por 8 já entra na faixa de “pré-hipertensão”. Medir a pressão é simples, acessível e há tratamentos eficazes.
Nessa equação, é importante considerar também a saúde mental. Quando estamos em alerta o tempo todo, o corpo libera adrenalina e cortisol, a pressão sobe, o coração acelera, os vasos inflamam e o sangue fica mais propenso a coagular. Um estudo internacional de grande porte com pessoas de 52 países identificou uma associação entre estresse crônico e infarto. Além disso, dormir menos de seis horas regularmente aumenta o risco cardiovascular.
Insuficiência cardíaca e arritmias
Na insuficiência cardíaca, o coração está enfraquecido ou fica rígido e não enche adequadamente. Com isso, o sangue pode se acumular e a pessoa sentir falta de ar ao subir escadas, ter dificuldade para deitar com a cabeceira baixa, acordar com sensação de sufocamento, apresentar inchaço nas pernas e ganhar peso de repente. Mas há uma boa notícia: a combinação de quatro medicamentos reduz internações e mortes de forma significativa. A insuficiência já não quer dizer sentença.
Já a arritmia ocorre quando o ritmo cardíaco sai do compasso: muito rápido, muito lento ou irregular. A maioria das pessoas já sentiu uma “falha” ou um “soco” no peito, sensações que geralmente são inofensivas. O sinal de alerta é quando a palpitação vem junto com sensação de desmaio, dor no peito, falta de ar ou quando os batimentos disparam e não voltam ao ritmo normal.
Tratamentos e qualidade de vida
Além dos medicamentos, dois procedimentos são bem conhecidos para tratar doenças cardiovasculares. O stent é uma pequena estrutura de metal colocada na artéria, por um cateter inserido pelo pulso. Ele ajuda a manter o vaso aberto em um ponto obstruído. A ponte de safena, por sua vez, é uma cirurgia na qual o cirurgião utiliza um vaso de outra parte do corpo (geralmente uma veia da perna ou uma artéria do tórax) para criar um “desvio” que contorna o trecho obstruído.
No infarto, o stent pode restabelecer rapidamente o fluxo sanguíneo, salvando o músculo cardíaco e a vida. Já quando há várias artérias muito doentes, principalmente em pessoas com diabetes, a ponte costuma ser a melhor opção. Depois do susto, muitos pacientes passam a cuidar mais da saúde e transformam o episódio em um ponto de virada.
A prevenção de doenças cardíacas começa com uma relação de confiança entre paciente e cardiologista. Uma das primeiras etapas é conhecer e monitorar cinco indicadores: pressão arterial, colesterol, glicose, peso e circunferência abdominal. Com esses dados e informações sobre hábitos e histórico da pessoa, o médico estima o risco de infarto e de AVC nos próximos anos.
Exercício é o melhor remédio. A recomendação geral é praticar 150 minutos por semana de atividade aeróbica como caminhar em ritmo acelerado, andar de bicicleta ou nadar, e duas a três sessões semanais de fortalecimento muscular. E nada de sair querendo recuperar o tempo perdido. Se sentir algo incomum ou cansaço excessivo, interrompa a atividade. Treinar “no sacrifício”, com dor ou mal-estar, não é coragem: é risco! Converse com o seu cardiologista e construa com ele um plano de cuidados adequado para o seu coração.
*Dr. Pedro Schulz é médico cardiologista do Hospital Dom João Becker. Ele foi o entrevistado da última edição do programa Papo de Saúde. Confira aqui o bate-papo.














