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Home Especial

Amon Costa | O bairro de 300 milhões de anos

Amon Costa por Amon Costa
18 de agosto de 2021
em Especial
Amon Costa | O bairro de 300 milhões de anos

Vista aérea do ano de 1979 da Rua Antonio Ficagna , caixa d'água, área onde é hoje o CTG Chaleira Preta e no centro à Av. Alexandrino.


Os meus primeiros contatos com a Morada do Vale foi lá por 1982 nos aniversários da época de criança, do meu primo, a minha memória infantil era de muito calor, uma vastidão de casas absolutamente iguais e sem nenhuma árvore, nada! Pouquíssimo verde. As moradas como são chamadas, Morada do Vale I, II e III constituem-se no maior bairro populacional de Gravataí com mais de 50.000 mil habitantes e é comparada com uma cidade dentro da cidade.

Vista aérea do ano de 1979 da Rua Antonio Ficagna , caixa d’água, área onde é hoje o CTG Chaleira Preta e no centro à Av. Alexandrino.
Professor Amon em 1983 na esquina da Antonio Ficagna com a Rua Amadeu Amaral.

Nas minhas investigações tentei retroceder no tempo o máximo possível para recontar a história do maior de todos os bairros; em 1977 o Engenheiro Civil da Construtora Guerino, relatou que a área tinha uma floresta composta de enormes eucaliptos a serem removidos para a terraplanagem da área, outros moradores afirmam que naquele espaço funcionava vários criadouros de porcos.

“[…] depois que tiramos todas as árvores, começamos a fazer o traçado das ruas, aquilo era um formigueiro de gente trabalhando, chegamos a fazer 36 casas por dia, foram 4.799 habitações só na primeira etapa do projeto.”– Engenheiro Horácio Topal – Responsável pela parte de edificações.

Os recursos da construção eram do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mas durante anos 1980 o Brasil enfrentou uma das maiores crises econômicas de sua história, com hiperinflação e falência generalizada das empreiteiras de construção civil, levando inclusive milhões de trabalhadores ao desemprego.

Essa crise refletiu diretamente no super bairro que estava nascendo, muito compradores das casas ficaram sem emprego e não conseguiram mais honrar com as prestações, abandonando as casas já no começo do empreendimento em 1982; as pessoas que assumem as casas com novos mutuários de financiamentos foram diretamente impactados com a hiperinflação e da mesma forma não conseguiram pagar a famosa “Bíblia” do BNH.

Foi aí que entrou a Caixa Econômica Federal que assumiu o crédito habitacional no exato momento em que todos estavam falindo e muitas empresas deixaram os canteiros de obras inacabados por todo o Brasil.

 

De 1979 na construção das casas de Climatex placas de madeira mineralizada que são aplicadas como isolante acústico, isolante térmico.
Foto de 1981.

“[…] a Caixa, que financiou e não recebeu, retomou os imóveis, alguns não acabados. Fui designada para ajustar o cadastro, eu esquadrinhei os três bairros, rua por rua, casa por casa. Com isso, a Caixa acessou os mutuários e muitos acertaram suas dívidas”– Liliane Camargo- Funcionária da Caixa Econômica Federal

Os primeiros moradores entraram em suas casas no ano 1979, estalando de novas, cheirando à tinta fresca e madeira nova, a grande maioria realizava pela primeira vez na vida o sonho da casa própria, os novos habitantes vindos de Alvorada, Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Zona Norte de Porto Alegre, Canoas e Esteio.

“[…]chegamos aqui em 1980, na rua Aldo Rangel; minha mãe trabalhava em Porto Alegre e resolveram não se mudar tão logo compraram a casa, meses depois quando chegamos com a mudança havia uma enorme família de ciganos ocupando a nossa casa, minha mãe com criança de colo foi um desespero, depois de muita discussão conseguimos entrar para dentro de casa, mas muitas famílias passaram pela situação e não conseguiram reaver suas casas.” Cristiane Puls.

De 1982 na Av Marechal Rondon esquina Alexandrino, divisa entre Gravataí e Cachoeirinha.

A organização e tranquilidade burocrática só veio quase uma década depois, com a regularização dos processos de ocupação no ano de 1990 durante o governo José Mota do PDT, aprovou-se a LEI Nº 577, que autorizou a prefeitura a permitir o direito real de uso dos imóveis ocupados, inacabados e com restrições documentais.

As propagandas na televisão da segunda fase de casas das moradas eram estreladas pelo comediante Mussum dos Trapalhões, apesar da conturbada situação documental o bairro, crescia muito rápido em serviço e comércios. O perfil social das Moradas era muito heterogêneo, jovens casais entre 20 e 30 anos, com filhos pequenos, multirracial e com uma diversidade religiosa impressionante.

Segundo o Censo de 2010, o bairro era o que mais possuía casas de religião africanas, as terreiras no estado, com procissões lindíssimas para OGUM e OXUM, muitos centros espíritas, diversos templos e a Rede de Paróquias São José com seus freis franciscanos: Frei Flávio, Frei Orestes, Frei Josmar, Frei Franklin, Frei João Carlos , Frei João Osmar, Frei Marino dentre outros que imprimiram no bairro de trabalhadores um senso comunitário muito forte, como exemplo as “bruxinhas de Deus” da pastoral da saúde com seus xarope e chás milagrosos. Em 2003 a minha vida profissional se cruza com o bairro e a paróquia, pois tive a oportunidade de trabalhar no projeto de educação musical Ouviravida, de lá saíram grandes músicos.

“[…]fomos os pioneiros nas rodas de samba, formamos um grupo de seresta que era lindo de se ver, outra coisa que tu tem que contar é da consagração da Unidos do Vale campeã do Carnaval de Gravataí, muito violão toquei nas esquinas das moradas.” Luiz Perez- Um dos primeiros músicos das Moradas.

No ano de 2003 Projeto de Educação Musical Ouviravida

Nessa fase, começa a luta pelos serviços públicos: postos de saúde, segurança, escolas, campos de futebol, linhas de ônibus e o surgimento dos primeiros comércios. Das muitas pessoas que conversei, era recorrente o relato de terem se perdido nos primeiros dias nas moradas, pois as casas eram exatamente iguais em cada etapa, com pequenas alterações de cor de janela e porta, poucas árvores e lugares como referência. A locomoção era algo muito difícil, pois não existiam linhas de ônibus no bairro, por um tempo teve uma linha circular, ônibus verdinho que nos levava até a ERS-020 ou na Av Marechal Rondon.

“[…]morávamos na parada 59, eu era daqui de Gravataí, minha infância toda foi no bairro, conheci meu marido aqui e estou criando nosso filho neste mesmo lugar, não sai da minha memória a minha primeira comunhão em uma auditório dentro da escola, pois ainda não havia nenhuma igreja.” , Simone Torquarto- Diretora da Escola Morada do Vale I- CIEP

O Famoso Foto Amarelinho em 1982, na Semana da Pátria, ao fundo os eucaliptos remanescentes e a chaminé da olaria.
Desfile de 7 de setembro de 1982 da Escola Morada do Vale I na Av Alexandrino de Alencar.

[…]eu vim de Porto Alegre, com dois filhos e nos mudamos no dia 2 de novembro de 1979, me lembro bem pois era dia de finados, era um sonho vir morar em uma casa nova, uma esperança, ah me deu uma saudade do mercadinho da Toninha.” Rejane Oliveira.

Em 1981, o time da Rua Assis Brasil ajudou a fazer o campo e as goleiras da Amovale.

“[…] Eu morava em Porto Alegre tinha uma poupança na caixa econômica, em março de 1980 quando me mudei muitos chamavam o bairro de pombal, lembro que quando ventava levantava aquela terra vermelha pois o solo é argila, era pai de 3 filhas, a alegria de entrar em uma casa nova, foi um sonho…” Ataídes Ramos de Oliveira- líder comunitário e ex-vereador.

Vou precisar de muito mais que algumas linhas na internet para registrar a história do bairro. É impossível falar da gigante Morada do Vale sem falar da Escola Getúlio Vargas e sua banda, do Armazém do Vetorazzi, a Farmácia da Abigail, da Escola João Goulart, da Alberto Pasqualini, do João Paulo II, o Nicolini que vendia frangos na avenida, das festas na ACECOVALE; dos campeonatos da AMOVALE, do Amarelinho, dos jornais da banca do Seu Félix, dos bailes e semanas farroupilhas no CTG Chaleira Preta; das centenas de terreiros com procissões lindíssimas para OGUM e OXUM; dos clássicos carnavais de rua (muambas), do samba, sim a morada do vale é o bairro mais musical, sambista, seresteiro, punk, funkeiro e rapper da cidade, das comemorações de títulos de Grêmio e Inter na esquina da Kipão, da eterna falta de água dos verões escaldantes e das incansáveis tentativas de explicar para os forasteiros as diferenças entre as Moradas 1, 2 e 3. Me falta tempo, mas logo, vou escrever sobre a história mais fantástica de todas: dos “ossos de dinossauros” de 300 milhões da era Paleozoica.

Tags: Amon CostaGravataíHistóriahistória de GravataíMorada do Vale
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