Na relação de pais e filhos, o aprendizado é mútuo. Essa é uma certeza para o casal Tatiana e Giovane Maffini, residente no distrito de Morungava, em Gravataí. Pais de Helano e Hector, de 10 e 4 anos – além da primogênita Helena (in memoriam) –, os moradores destacam que a criação dos filhos tem sido distinta, trazendo novas lições diariamente. Com o caçula, que é autista, eles têm compreendido melhor que cada pessoa tem as suas particularidades e buscar entendê-las e respeitá-las beneficiará a convivência familiar.

Segundo Tatiana, para uma mãe e um pai, o conforto, bem-estar e felicidade dos filhos serão sempre prioridades. E foi por isso que a condição de Hector inspirou uma ideia que mobilizou a família. Os Maffini adoram viajar, porém alguns comportamentos e necessidades do menino, próprios do autismo, dificultavam os passeios. A moradora relata que as refeições do pequeno eram uma das maiores dificuldades. Muitas vezes, saiam de restaurantes sem comer nada porque o filho não consumia o que havia no cardápio devido às restrições alimentares. A criança também não fazia uso de banheiros em outros locais.
“Acabava sendo estressante para todos. E isso é ruim para a criança e para a família. Eles não fazem essas coisas porque gostam, mas porque são assim”, argumenta Tatiana. Pensando em alternativas para poder passear, mas atendendo às demandas e deixando o filho mais novo confortável, os pais, por intermédio de um colega de Helano, descobriram o canal do YouTube “Vibe de Dois”, que traz vídeos de um casal que viaja em uma Kombihome e está indo para o Alasca. Ali nasceu um sonho.
Tatiana e Giovane começaram a pesquisar sobre o tema e juntar dinheiro para compra de um veículo. Pensaram numa Kombi inicialmente, porém decidiram adquirir uma van, um modelo Renault Master 2005. Com planejamento elétrico e hidráulico, além dos espaços e compartimentos para bagagens, começaram a colocar o projeto em prática. Giovane, que trabalha como caseiro durante o dia, aproveitava as noites e dias de folga para se dedicar a construção e montagem. Após um ano de trabalho manual, há cerca de um mês, o motorhome finalmente teve condições de ir para a estrada.
“É uma realização sair da tua residência e estar andando dentro de outra casa”, comenta o pai dos meninos, referindo-se ao conforto que a estrutura proporciona. No motorhome há uma cama para toda a família, cozinha e banheiro portátil, com o qual Hector já está adaptado. Conforme Giovane, o plano é fazer outras melhorias no veículo, que tornarão as viagens ainda mais prazerosas.
“Antes do motorhome passamos por muitos perrengues com o Hector”, frisa a mãe ao recordar os problemas em restaurantes e o fato do caçula não usar vasos sanitários em estabelecimentos pelo caminho. “Levamos um tempo para entender que isso não era somente sobre a vontade dele e sim sobre quem ele é. Por amor a ele, construímos o motorhome”, completa.
Conforme a família de Morungava, todo o esforço valeu a pena. Cada passeio tem sido especial. O menino autista gosta de estar no motorhome, às vezes fica deitado no veículo estacionado no pátio. Para Helano também é uma diversão passear na casa móvel. Os primeiros destinos visitados foram Ametista do Sul, São Francisco de Paula e o Templo Budista de Três Coroas. “Para as viagens, escolhemos lugares que não são muito fechados. Por exemplo, que tenham bastante área verde, pracinhas, locais mais calmos e com espaço para caminhar, que não tenham som muito alto e grande volume de pessoas”, explica a mãe dos garotos.
O gesto de amor e respeito à criança com autismo também fortalece o vínculo familiar. Ver Hector bem, alegre e confortável é gratificante para os pais e o irmão. Além disso, os Maffini almejam que nesse Dia das Crianças, mães e pais reflitam que mais importante do que presentear com brinquedos são os momentos de união, afeto e cumplicidade com os filhos. Eles torcem para que outras famílias com algum membro autista percebam possibilidades de inclui-los na rotina, sem desrespeitar sua forma de viver. “É possível nos adequar, enquanto pais, para ajudar nesse processo, contribuindo para que sejam crianças livres e mais felizes”, afirma Tatiana.
Fotos: Priscila Milán/Giro de Gravataí

















