Desde John Lennon e Paul McCartney, Roger Waters e David Gilmour, Paul Simon & Garfunkel, e até mesmo os brasileiros Sullivan e Massadas ou Erasmo Carlos e Roberto Carlos, as duplas sempre renderam pérolas para o cancioneiro mundial. Pois agora, os gravataienses podem ficar com os olhos e ouvidos atentos e a sensibilidade mais aguçada, podendo assim, bradar ao país, ou quiçá, mundo afora: “sou lá da Aldeia dos Anjos, terra de Marcos Delfino e Stanis Soares!”
Sim, o álbum de estreia é de Marcos, que empresta seu talento ímpar, todo seu carisma acolhedor e dá voz a esse sonho que juntos realizam. Se Delfino é o corpo deste projeto, Soares empresta a alma e a excelência realizada na produção deste primeiro trabalho do artista. Pois essa realidade não seria possível sem a amizade, a parceria e o talento em uníssono destes dois gravataienses.
Assim como Delfino, Stanis também tem sua estreia no mundo da produção fonográfica e de forma brilhante, assina com mãos de ferro a produção musical e executiva do primeiro álbum do seu parceiro e compadre. Comprovando o que eu já sabia: Stanis é mesmo um obstinado em tudo o que ele se propõe a fazer. Seja na operação de áudio, na iluminação de um espetáculo ou como instrumentista, arranjador, compositor e agora produtor. Mas isso é assunto para outra pauta, na qual o filho de Stanis Fialho e Regismari ganhará o devido protagonismo.
Nesta segunda, dia 21 de outubro, chega a todas plataformas digitais o primeiro álbum do gravataiense Marcos Delfino, batizado com seu sobrenome: DELFINO. O trabalho, lançado pelo selo carioca Ternário Music, conta com seis canções inéditas e uma releitura – e somente uma faixa não é produzida por Stanis Soares. E como definir esse disco?
Conclamo, musicalmente falando, que apurem seus ouvidos, pois essas sete faixas poderão ser responsáveis por interferirem diretamente no humor do seu dia. Em dado momento reflexivo, noutros solar, radiante e por vezes emocionante, tocante, mas acima tudo sincero, verdadeiro e visceral, como é Marcos Delfino no palco. Em sua primeira incursão fonográfica, tem uma das músicas de sua autoria e ainda conta com luxuosas participações, um time que bem poderia ser chamado de uma espécie de seleção brasileira musical.
A faixa que abre o álbum e que já estava disponibilizada nos streamings, “Agora”, foi produzida por Paulo Inchauspe, sendo a letra inédita do Gerson Conrad (ex-Secos & Molhados) e do gaúcho Márcio Celli. Mas engana-se quem acha que a suavidade da voz de Delfino dará a energia do álbum. Ele já começa essa viagem sonora em com ar professoral e vai logo perguntando aos transeuntes da fotográfica canção “O que tem agora? O tempo irá dizer…” e como num presságio aos seus questionamentos é respondido nas faixas seguintes. Afinal, como ele mesmo canta: “eu queria um novo tempo…” Assertivamente, cantor e produtor parecem estar convictos de que novos tempos virão para novas parcerias musicais de compadres da vida e de música.
A segunda faixa segue surpreendendo, exponencialmente, pois eu um dia acreditei piamente que em hipótese alguma a música “Romance” poderia receber uma versão que me emocionaria tão ou igual à original da que o caxiense Nei Lisboa decantou há 31 anos em seu álbum “Amém”. Sendo que, nesta releitura, Marcos se apropriou dela com zelo, respeito e carinho. Sua interpretação ganhou espaços, intervalos e silêncios (o silêncio que também é música) que valorizam ainda mais a canção de Nei. O violão parece ter vida própria quando este é tocado por Stanis e o surpreendente desfecho a la Milton Nascimento, propiciados pelo próprio violonista e Du Silveira, que fazem os vocalizes que arrebatam de vez o granfinalle dado à versão do eterno senhor do Bonfim. (Para chorar nos cantinhos, como diria Mauro Borba)
Na sequência, Delfino insiste em surpreender ainda mais, mostrando uma faceta sua nunca antes vista, e literalmente mostra-se um sedutor em potencial, desta vez dando voz ao delicioso samba do ator Carlos Falcão Folha Seca, que ganhou os arranjos interestaduais do ex-morador de Gravataí e hoje integrante da ala dos compositores da Portela, Guinter Vieira, talentoso músico, radicado no Rio de Janeiro, onde reside há mais de 10 anos.
O bandolim de Guinter dá a clareza e a suavidade que a composição de Falcão merece e mais uma vez ganha a aprovação do violão de Stanis. O coro de vozes que toma de assalto o refrão juntando-se ao do intérprete não deixa dúvidas; “O amor dói, também deixa a gente daquele jeito… mas dói”. O que não é o caso deste samba tradicional, em que a sabedoria falada ganha vida em verso e prosa na mansidão da voz de Delfino.
Em seguida, a faixa “Cigana” ganha uma das mais emocionantes e sensíveis interpretações do álbum. Já na introdução, o convidado Diego Dias, integrante da banda Vera Loca, faz uma participação especial com sua cordeona que chora e que também faz chorar, pois na música a beleza também advém da melancolia e da composição do gravataiense Tiago Ramos, a qual parece ter sido feita sob medida para o lado visceral de Delfino, que empresta sua pujante emoção ao colocar sua voz com sutileza e precisão em cada sílaba das palavras da primeira frase, de forma pausada, respeitando os intervalos sobre cada acorde do violão tocado por Stanis, isso já nos primeiros versos da música: “você que cabe dentro do meu peito que é o corpo nu que eu nunca vejo…” A canção ainda ganha elementos flamencos e um surpreendente pandeiro ao melhor estilo Marcos Suzano fica evidenciado e vai sutilmente sendo inserido durante a canção.
Tiago Ramos (para mim eterno Tiago Rosa) também assina a faixa seguinte. Aliás, ele é o único compositor que possui duas de suas obras no álbum dos estreantes Delfino e Stanis. A dançante, provocadora e questionadora “Que crime é esse?” é uma espécie de frevo moderno, recheada com típicas percussões latinas, tocadas adivinhe, por quem? Pasmem! Também por Stanis. A música ainda conta com o psicodélico e estridente teclado de Gabriel Cardozo, a bateria de Fernando Eiber e o baixo de Amilton Ritzel.
Entre as composições das quais Delfino foi agraciado, ele foi muito feliz em suas escolhas, em que pese pelos autores ou até mesmo as respectivas participações especiais. Pois Paulinho Mendonça, letrista de “Sangue Latino”, que escreveu “Coisas do Coração” em parceria com a compositora Sueli Costa, parece ter o escolhido para ser o intérprete da canção. Com a participação especial do multifacetado Arthur de Faria, que dita o tom da sensibilidade exigida nesta canção em posse de um hammond e arrebata já na introdução, logo nos remetendo a Cole Potter ou a um típico piano bar ao melhor estilo Tom Jobiniano, nesta despretensiosa jazzistica canção, que entrega a suavidade comovente e necessária de Delfino, mais uma vez de forma assertiva. “Sigo o rastro dos cometas dou a volta no planeta…” Foi literalmente assim como me senti ao ouvi-la pela primeira vez. A música conta ainda com baixo de Amilton Ritzel, Fernando Eiber na bateria e Stanis mais uma vez nos violões.
O artista encerra sua estreia de forma apoteótica, tentando se autoexplicar em sua reflexiva “Livro Aberto”, um trip hop com ares de um moderado rock progressivo em que ele canta a única música de sua autoria em seu primeiro trabalho. E como ele mesmo diz na letra: “só quero te lembrar, baby, que nem sempre foi assim…” Stanis se apropria das distorções da guitarra, que acidentalmente possuem influências da banda inglesa Portishead. Por fim, o recurso usado na voz de Delfino, chamado coros, gera um pequeno delay, o que foi uma opção de estética de mixagem que ambos optaram, e confesso que foi uma grata surpresa.
Bem, creio que isso não seja um mero presságio: o álbum de DELFINO ai chegar às plataformas digitais justamente neste dia 21 de outubro, data essa que também marca a reinauguração do Aeroporto Salgado Filho, após meses sem poder ser utilizado, pois ao que tudo indica, o artista deverá fazer muito uso das pontes aéreas para espalhar sua arte, país afora, depois de seu primeiro e promissor trabalho.
Para o show de lançamento, além das sete músicas do disco, o artista vai interpretar algumas releituras de rock nacional e da MPB. O repertório terá nomes como Gal Costa, Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Ney Matogrosso… Delfino também vai receber no palco alguns amigos e colaboradores desse projeto: Glau Barros, Paulo Inchauspe, Antônio Carlos Falcão e Diego Dias. A direção musical desse show é de Stanis Soares, e o artista será acompanhado pelos músicos: Fernandão (bateria), Amilton Ritzel (baixo), Guto Padilha (percussão), Gabriel Cardoso (teclados), Mick Oliveira (guitarra) e Vini Braun (violões).
Tome nota: dia 26 de outubro, às 20h, no Teatro do Sesc Gravataí. Os ingressos estão à venda no SAC do Sesc ou pelo e-commerce. Garanta logo o seu!
Fotos: Divulgação
















