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No Outubro Rosa, conheça histórias inspiradoras e que motivam pacientes na luta contra o câncer de mama

Priscila Milán por Priscila Milán
25 de outubro de 2024
em Especial
No Outubro Rosa, conheça histórias inspiradoras e que motivam pacientes na luta contra o câncer de mama

 

“O que faz com que você se sinta melhor? A tua cabeça. Nossa cabeça é nosso mestre. Eu sempre fui muito feliz, graças a Deus, e com conhecimento do que é felicidade. Tem gente que busca felicidade uma vida inteira e ela está contigo o tempo todo. Tem vida depois do câncer. Dá para ser feliz todo dia. A gente busca uma felicidade longe, mas ela está todo dia com a gente. A gente é feliz quando acorda e respira, quando vê o filho sorrir, quando vê que os braços e as pernas mexem.” O relato é de alguém que fala por experiência própria. A funcionária pública aposentada e terapeuta integrativa Silvana Freitas Teixeira descobriu um câncer de mama há mais de 18 anos. Fez o tratamento e há cerca de dois anos recomeçou sua luta, após o diagnóstico de metástase.

Aos 58 anos, a gravataiense revela que enfrentar o câncer novamente não lhe causa o pavor de quando teve o diagnóstico e desconhecia temas importantes sobre a doença, o tratamento e os efeitos. Ela conta que desde os 33 anos sentia fortes dores nos seios e procurou médicos para investigar o quadro. Fez mamografias algumas vezes, porém nada foi constatado. Aos 39 anos, durante um banho, sentiu uma agulhada embaixo do peito direito. Foi em frente ao espelho olhar, acreditando se tratar de uma picada de inseto, mas quando levantou o braço, o mamilo ficou totalmente retraído.

A primeira medida da funcionária pública foi procurar uma ginecologista. Na consulta recebeu encaminhamento para fazer urgentemente uma mamografia com ecografia. Com o resultado em mãos, teria que ir a um mastologista. Não conhecia a especialidade, não imaginava o que poderia ser. Antes de procurar um especialista, todavia, mostrou a requisição e exame a uma amiga enfermeira. “Até ali estava tranquila. Quando ela olhou, e pensando que eu sabia, disse que o tratamento de câncer de mama estava muito evoluído e havia dois mastologistas ótimos no município. Eu comecei a chorar compulsivamente”, recorda.

Silvana participa de ações sobre orientação acerca do câncer de mama e realiza palestras em Gravataí e Cachoeirinha. Foto: Priscila Milán/Giro de Gravataí

Quando Silvana descobriu o carcinoma ductal infiltrante, seus nódulos já estavam grandes (um tinha aproximadamente 5 centímetros e outro 3 centímetros). Infelizmente, a primeira avaliação médica, após os exames, não trouxe perspectivas positivas e esperança. O médico afirmou que deveria “curtir a vida” e, com isso, passou a pensar que morreria logo e ficou ainda mais preocupada com os filhos, Anelise e Alan, que tinham apenas 14 e 9 anos na época. Após o estágio de negação da doença, a gravataiense decidiu que buscaria força na família e em sua fé. “Eu só pedia a Deus para conseguir criar meus filhos. E ele me deu essa chance”, frisa.

Foram seis sessões de quimioterapia e 29 de radioterapia, algumas cirurgias, vários medicamentos até Silvana começar a deixar o câncer como um capítulo no passado. Mas ao longo de todo o tratamento, mesmo com dores e desconfortos que surgiam em efeito aos procedimentos, não deixou de ver o colorido da vida. “Uma coisa é certa: a doença, a tristeza ou alegria tá na cabeça da gente. Se a gente consegue ver com alegria, a mesma doença vai passar mais tranquila”, salienta.

Carismática e bem-humorada, a gravataiense procurou ocupar seu tempo com atividades de que gostava. Após a aposentadoria, seus compromissos eram cuidar de si, aproveitar momentos especiais com a família e os amigos e também ajudar outras mulheres em tratamento contra o câncer. Estudou e passou a dar aulas de técnicas da medicina tradicional chinesa. Tornou-se mestre de Reiki, realiza acupuntura, reflexologia, entre outros métodos que a auxiliaram a se sentir melhor no dia a dia e agora levam bem-estar a outras pessoas. Fez do artesanato outra terapia e uma forma de angariar recursos para causas em prol de pacientes oncológicas. Encontrou na dança cigana uma fonte de alegria e aumento da autoestima.

“Sempre fui uma pessoa que gosta de estar junto de muita gente e ensinar. Depois que comecei a querer viver, decidi que estava muito nova e não ficaria parada. A dança cigana é algo muito alegre, tu dança com flor no cabelo, a saia te faz voar. Já faço várias terapias, então pensei por que não fazer terapia de dança cigana? Com todas as terapias e a dança cigana, o ensinar com alegria fez com que eu fosse modelo para muita gente. Sendo modelo, isso me feliz também. Quem não quer ser exemplo para os outros? Isso me fez esquecer de todas as dores que passei”, explica Silvana.

Artesã confecciona as bonequinhas Vitoriosinhas, que têm parte da renda destinada a pacientes em tratamento contra o câncer. Foto: Priscila Milán/Giro de Gravataí

A terapeuta integrativa também se tornou palestrante e apoiadora da campanha Outubro Rosa em Cachoeirinha, onde morou por muitos anos e participa das ações do programa Viva Mulher, e Gravataí, cidade em que é voluntária na Liga de Combate ao Câncer. Nas palestras, compartilha sua história, com realismo, porém sem deixar de incluir um toque divertido e otimista.

Segundo Silvana, em 2022, sintomas a levaram novamente a investigar o que havia. O primeiro sinal de que algo estava diferente foi a dormência em três dedos da mão. “Aquilo não passava”, lembra. Exames indicaram metástase. O câncer voltou e agora espalhado pelos ossos, fígado e pulmão. Não há cura, mas tratamentos para aliviar sintomas. A notícia foi um baque. Contudo, a moradora está decidida a seguir com o que considera sua missão: viver feliz e grata pelas coisas boas da vida, incentivar outras mulheres a enxergarem sua força e beleza, proporcionar melhor qualidade de vida através das terapias integrativas e compartilhar conhecimento através da própria experiência.

Após verificação da recidiva, a funcionária pública aposentada revela que sentiu a necessidade de falar abertamente sobre a morte, tema que é desconfortável para muitos, no entanto para ela é considerado normal, visto o ciclo da vida. “Uma bandeira que defendo hoje é que a gente saiba mais sobre o câncer e fale mais sobre a morte, porque a única coisa certa quando nascemos é que vamos morrer. As pessoas não querem falar de morte, mas hoje eu sinto vontade de falar e saber mais sobre o câncer. Eu estou esperando a morte? Não, para mim quem cuida disso é Deus. Mas quando chegar a hora, quero que as pessoas saibam o que eu queria”, aponta, acrescentando que gostaria que o corpo seja fonte de pesquisa para contribuir para evolução nos tratamentos oncológicos.

A palestrante ainda tem muitas metas. Exemplifica que deseja passear mais, curtir o tempo com o esposo, Ney Antônio, e os familiares, concluir o curso de Terapias Integrativas, fazer mais ações voluntárias. “O meu tempo é único, muito importante, e eu não quero aproveitar com bobagem. Eu quero, principalmente, saber que usei meu tempo para fazer coisas ótimas, ensinar, ser exemplo, poder dividir e multiplicar”, declara.

Dr. Cássio Paganini é médico mastologista na Santa Casa de Porto Alegre. Foto: Priscila Milán/Giro de Gravataí

Avanços nos tratamentos e alto potencial de cura

O mastologista Cássio Paganini, da Santa Casa de Porto Alegre, destaca que a alta incidência de câncer de mama no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul, assim como em outras patologias, é associada aos hábitos de vida. “É uma doença multifatorial, na maioria das vezes não tem um único fator causal”, indica o médico, completando que o fator genético hereditário corresponde a apenas cerca de 10% dos casos. Por essa razão, as campanhas recomendam cuidados preventivos, como alimentação saudável, prática regular de atividades físicas, controle do peso e evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

A mobilização no Outubro Rosa visa a prevenção e identificação precoce da doença. “O diagnóstico precoce do câncer de mama pode determinar a cura ou não da paciente. Se conseguirmos detectar os tumores num estágio pré-clínico, no qual ainda não há uma alteração detectável examinando as mamas, por exemplo, lesões muito pequenas, teríamos uma chance de cura de mais de 90%”, explica o especialista.

Conforme o médico, no rastreamento de pacientes assintomáticas, o principal exame é a mamografia. “O exame consegue mostrar alterações ainda numa fase pré-cancerígena, lesões com potencial de se tornar câncer. A mamografia é o exame que tem validação científica de potencial de diminuição da mortalidade. Muitas vezes precisa de complementação com ecografia mamária. E existem outros exames necessários para investigação ou conclusão diagnóstica em alguns casos específicos, como a ressonância magnética e tomossíntese, que é como uma tomografia da mama. Existem novos exames sendo estudados, mas que não foram validados ainda”, diz.

A Sociedade Brasileira de Mastologia defende a realização de mamografias a partir dos 40 anos, mas uma normativa do Ministério da Saúde e Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda acima dos 50 anos. “Se formos fazer mamografias somente em pacientes com mais de 50 anos, estaremos deixando de rastrear em torno de 30% dos casos”, informa Dr. Cássio.

O médico reforça que outras estratégias recomendadas como formas de prevenção são o autoexame e o exame clínico das mamas, realizado por um profissional de saúde treinado. É aconselhável que o autoexame seja realizado uma vez por mês, preferencialmente na semana seguinte à menstruação. Para as mulheres que não menstruam mais, a recomendação é definir uma data e também fazer o autoexame mensalmente.

Em termos de tratamento do câncer de mama, o especialista relata que houve importantes progressos. “Nos últimos anos, o arsenal terapêutico contra ao câncer de mama evoluiu muito. Hoje entendemos muito mais sobre o comportamento dos tumores. O tratamento das pacientes tende a ser cada vez mais individualizado. Nas últimas duas décadas, principalmente, a evolução dos tratamentos foi muito grande e se consegue curar um número muito maior de pacientes previamente”, argumenta. “Mas ainda que se tenha um tratamento efetivo disponível, quanto mais cedo for diagnóstico, menor tende a ser a necessidade desses tratamentos”, acrescenta.

De acordo com o mastologista, estudos e a tecnologia também possibilitaram avanços no desenvolvimento de medicamentos para pacientes com câncer. Ele ressalta que o tratamento com maior potencial para efeitos colaterais é a quimioterapia, que pode provocar náuseas, vômitos, fadiga, sensação de fraqueza, entre outros sintomas. Há medicamentos, no entanto, que tentam minimizar os efeitos, inclusive a queda de cabelo, que é algo impactante para as pacientes.

Dr. Cássio sinaliza que durante o tratamento é igualmente importante contar com uma rede de apoio, composta por equipe multidisciplinar, que inclui, por exemplo, psicólogo, enfermeiro, nutricionista e assistente social. “Uma vez diagnosticado o câncer, a paciente vai passar por alguns tratamentos, que são bastante individualizados e vão depender do estágio em que a doença foi detectada e do subtipo de tumor. A paciente fica frágil emocionalmente e os tratamentos podem fazê-la ficar frágil do ponto de vista físico, elas precisam de suporte. Os centros de tratamento oncológico dispõem de profissionais que vão ajudá-las com as diversas dificuldades que possam enfrentar durante o tratamento”, afirma.

Campanha Outubro Rosa também intensifica as atividades voltadas à saúde da mulher. Foto: Priscila Milán/Giro de Gravataí

Após o câncer, uma nova fase

A artesã canoense Sônia Vargas Corrêa, residente em Gravataí há mais de 20 anos, está se adaptando a uma nova fase de vida. Ela revela que muita coisa mudou após a descoberta da doença. A rotina não é mais a mesma. Aos 55 anos, a moradora é um exemplo de como conhecer a si mesma e ao corpo pode ser crucial para a saúde.

“Sempre tive nódulos, mas acompanhava, fazia mamografias. Mas lá por março de 2022, comecei a sentir que estava diferente. Senti uns carocinhos, o bico do meu seio estava diferente”, relembra. Procurou assistência médica e chegou a ouvir que “estava procurando problemas”, mas convicta de que algo estava diferente, persistiu e buscou um especialista. Depois de fazer novos exames, recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

Tudo foi muito rápido. “Nunca me senti com a doença. Senti que estava diferente”, aponta Sônia, que precisou fazer a mastectomia bilateral total. Cerca de duas semanas após a remoção das mamas, teve que fazer uma cirurgia para retirada de linfonodos na axila. No ano passado, realizou seis meses de quimioterapia. Tudo ficou para trás? Não. A moradora admite que a doença provocou muitas mudanças em sua vida, física e emocionalmente. Teve a autoestima abalada, sobretudo com a perda de cabelos e ganho de peso, e ansiedade aflorada, todavia buscou apoio, faz terapia e está recuperando seu olhar mais confiante. E mais, está contribuindo para que outras mulheres compreendam a importância do autoconhecimento, do cuidado com a saúde e o tempo para si mesma.

Sônia é uma das voluntárias da Liga de Combate ao Câncer, que leva informação e apoio a pessoas em tratamento. Foto: Priscila Milán/Giro de Gravataí

Acostumada a ser aquela “mãezona” sempre disposta a ajudar os filhos e a família, a cuidar dos outros, hoje Sônia também precisa de apoio. Mas está aprendendo a lidar com isso. “Inicialmente, eu me anulei. Era muito ativa e simplesmente tive que parar. Eu me sinto bem fazendo as coisas para ajudar os outros, mas quando eu preciso, ainda não consigo pedir”, admite a esposa de João Fontoura, mãe de Helena e João Marcos e avó de Helen.

Sônia comenta que sempre foi muito ativa e após o câncer, o ritmo diminuiu. Não pode levantar peso, dormir de bruços, sente-se mais cansada do que antes. Investiga outros quadros de saúde e, em relação ao câncer de mama, não foram constatadas mais alterações, porém terá que seguir acompanhando a condição com regularidade. “Faço acompanhamento com bloqueador hormonal. Farei, no mínimo, sete anos”, frisa.

Com os filhos morando longe (Helena em Santa Catarina e João Marcos na Serra Gaúcha), Sônia, que “não gosta de se vitimizar”, tem procurado participar mais de ações junto à Liga de Combate ao Câncer, onde ajuda na confecção de peças para doação em hospitais que atendem pacientes oncológicos. “Sempre gostei de artesanato, desde criança. Meu pai tinha costume de fazer como terapia, lazer”, conta a voluntária, que foi monitora em escolas, em projetos extraclasse de artesanato.

Por meio da Liga e de grupos nas redes sociais, Sônia também compartilha sua experiência, o conhecimento que adquiriu sobre a doença e como está sendo viver uma nova fase. “Conseguindo passar tudo o que senti e estou sentindo, a experiência, será importante. Vejo que muitas pessoas são leigas de procurar uma informação. As pessoas não sabem onde buscar informação. E eu gosto de conversar e explicar, de dizer o que passei, as dificuldades que eu tive. Me faz bem saber que de repente estou ajudando alguém a descobrir antes o problema”, destaca.

Tags: casos de câncer de mama em GravataíOutubro Rosaprevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama
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