Se tivesse que mover uma ação judicial contra alguma peça publicitária que me causou trauma de infância ou que, por ventura, tenha desencadeado um complexo em minha vida adulta, certamente elegeria aquela propaganda das bicicletas Caloi. Creio que a marca não escaparia de ser acionada judicialmente.
Isso porque a campanha tocava justamente no ponto mais sensível da minha infância lúdica: alimentava uma utópica expectativa que perdurava até a noite de véspera de Natal. Durante a semana que antecedia a data tão esperada, repetia, com toda inocência infantil, o bordão da propaganda para meus pais e irmãos mais velhos: “Por favor, não esqueça minha Caloi!”.
As palavras saíam acompanhadas de um sorriso que transitava entre a esperança inocente e a convicção impetuosa de que bastava aguardar a noite natalina para finalmente pedalar minha tão sonhada bicicleta. Mas, ledo engano. A espera logo se transformava em apreensão. Ao observar o tamanho e o volume dos presentes sob a árvore, percebia que nenhum deles tinha as proporções de uma bicicleta.

Toda aquela expectativa acabava em incredulidade. Ainda hoje, guardo na memória os estampidos dos rojões e o som dos fogos de artifício vindos da rua. Contrastavam com o estralar agudo dos papéis de presente sendo rasgados e com o soluço baixo de uma criança que não recebeu o tão esperado presente natalino.
No dia seguinte, as ruas do bairro eram tomadas por crianças exibindo os belos presentes que ganharam. Era como uma disputa silenciosa entre os pequenos. Muitos foram agraciados com bicicletas da famosa marca que dominava os comerciais daquele período festivo. Restava a mim entoar baixinho a melancólica canção do baiano Assis Valente: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel…”
Evidentemente, aquilo não fazia de mim a criança mais triste do bairro, tampouco da cidade. Afinal, meus amigos sortudos e generosos sempre me convidavam a dar uma volta na quadra com suas bikes. Contudo, o desejo por uma bicicleta própria só aumentava. Anos depois, já sem a ilusão do “bom velhinho”, meu sonho se concretizou.
Depois de longa espera, finalmente tive minha tão desejada Caloi. Não era uma bicicleta qualquer, mas o modelo Cross FreeStyle, com toda a pompa e modernidade que encantava o universo ciclístico do final da década de 1980. Roxa, quase lilás, parecia mudar de cor sob o sol, ao menos na imaginação de uma criança sonhadora.
Foi um presente do meu irmão mais velho, que, sorridente, pedalou até minha casa trazendo não apenas a bicicleta, mas meus antigos sonhos juvenis. Ele transformou aquela tarde ensolarada de sábado em um verdadeiro dia de Natal.
Aquele presente transcendia o material. Representava o fim da espera, o preenchimento de afetos e a realização de um desejo que por anos habitou meu coração. Minha Caloi não era apenas uma bicicleta; era símbolo de esperança, inocência e felicidade – sentimentos que a vida adulta, por vezes, nos rouba.
Ainda hoje, em todas as noites de Natal, lembro daquele momento. Sinto a leve brisa que me toca, como se fosse a presença do meu irmão. Relembro seu sorriso, a felicidade que trouxe à minha vida e a reconexão com a magia do Natal.














