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Home Cultura

André Valdez | Músicas de cabeceira

Jornalismo - Giro de Gravataí por Jornalismo - Giro de Gravataí
3 de abril de 2023
em Cultura
André Valdez | Músicas de cabeceira

Foto: Olhar de Fernando/Acervo Laboratório Fantasma


Foto: Olhar de Fernando/Acervo Laboratório Fantasma

Quando ando pelas ruas da cidade onde moro há muitos anos, serelepe e exibindo minhas madeixas imaginárias, e a minha já temerária e negoveistica barba branca, eu diria que poucas pessoas não têm conhecimento da minha paixão por Música Popular Brasileira e outros gêneros e o quão entusiasta e pesquisador de novidades, raridades e preciosidades sou. Eu sou mesmo um aficionado!

Muitos, já tendo conhecimento desta informação, sempre fazem perguntas clássicas, típicas e pertinentes: “tu já ouviu isso?” ou “conhece esse álbum?”, ainda que seja um trabalho novo ou de um artista já consagrado.

O fato é que eu jamais desconsidero qualquer informação quando o assunto é música. Possuo uma sede inesgotável de querer sempre aprender, ser um eterno aprendiz. Esse talvez seja, o segredo para angariar, cada vez mais, conhecimento e sapiência.

Alguns musicais exemplos: quem me apresentou Marcelo Camelo foi minha própria ojeriza, causada pelo chiclete hit “Anna Julia”.  E fui fazer as pazes com a sonoridade da banda carioca somente no álbum posterior, “O Bloco do Eu Sozinho”, de 2000, que, para mim, foi definitivamente um divisor de águas.

Este álbum quebrou paradigmas e acabou de vez com as minhas pretensões de investir na carreira musical (agradeçam, sim, eternamente ao Los Hermanos por terem se livrado de me ver por aí nos palcos da vida).

Depois de ouvir inúmeras vezes, a ponto de quase gastar o CD ou furar o LP (expressões que eram usadas no período pré-Spotify) entrei numa crise existencial, dizendo a mim mesmo: “esses cariocas barbudos fdp… roubaram a minha ideia!” Bem, graças a eles, o mundo da música ganhou um ex-músico, sem nunca sequer ter sido de fato e oficialmente.

Já ao rapper paulista Emicida, eu fui apresentado depois de tanto destaque na imprensa, pela crítica especializada e os inúmeros elogios que toda cena musical despendia ao seu trabalho.

Confesso que despertou a minha já conhecida curiosidade em ter, de fato, a percepção, o porquê deste jovem ganhar tanto destaque e cair nas graças dos mais conceituados artistas do nosso país. Mas, a resposta foi obtida somente depois da sugestão, dica, ou melhor, intimação e apelo afetivo da minha querida sobrinha, Franciele Valdez (hoje quase uma balzaquiana), para que ouvisse o trabalho deste negravilhoso menino.

É importante ressaltar que, hoje, me orgulho do gosto musical da Fran, que advém dos inúmeros furtos que ela propiciava ao meu som, para levá-lo para os seus demorados e intermináveis banhos com performances, que bem poderiam, levá-la a Broadway.  Mas, infelizmente, ela não quis investir na exitosa carreira que certamente teria.

Bom, mas isso já é assunto pra outra pauta, em que a jovem Franciele ganhará ainda mais destaque e novas revelações acerca dos seus múltiplos talentos que abriu mão de explorar.

Antes que me encontrem por aí e questionem o que estou ouvindo, já vou logo esclarecendo: tenho acordado todos os dias, cantando a plenos pulmões “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida”, música do Emicida. Eu a considero uma espécie de “Conversas de botas batidas”, música da saudosa banda carioca Los Hermanos.

Bem, ao menos para mim. As duas me emocionam de uma forma muito singular. Em que pese pelas frases iniciais de ambas serem arrebatadoras ou possuírem em suas instruções algo que me tomou de assalto e a minha versão mais profunda do que vem a ser um canceriano confesso, como eu, pode estar suscetível ao encantamento com tal musicalidade.

Traçamos, assim, uma linha paralela e muito tênue do que representa a sensibilidade dos autores nas citadas músicas. O inusitado fato de ambos usarem suas famílias para participarem das gravações, talvez, ou melhor, certamente agrega um ingrediente com ainda mais ternura e emoção às composições de Emicida e Marcelo Camelo.

O rapper paulista capta áudios de suas filhas brincando e fazendo outros ruídos e proferindo frases como “carta pra todo mundo, tá”. A música ganha ainda mais beleza e brilho com elas expondo, assim, toda doçura infantil.

Já o compositor carioca coloca no estúdio seus irmãos e outros familiares para juntos cantarem: “Diz quem é maior que o amor? Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora. Vem, vamos além…”.

Talvez essas informações façam com eu me comova ainda mais, mesmo sendo elas canções, tão distintas e diferentes, mesmo possuindo harmonias e estruturas melódicas tão opostas, elas se aproximam e se assemelham, por um único e irrefutável motivo:  falar e decantar a sensibilidade coletiva de forma tão peculiar e linda.

Obrigado à Terra da Garoa, São Paulo de Adoniran Barbosa e Emicida.

Obrigado à Cidade Maravilhosa, Rio de Janeiro de Noel Rosa a Marcelo Camelo.

Arte vive, sobrevive, resiste e se reinventa em todos os lugares, mesmo que seja oriunda de pessoas ou de diferentes épocas.

P.S.: Bem, a jovem Franciele não pratica mais seus pequenos delitos ao som do seu tio. Hoje é quem tem norteado e sugerido as novidades da cena musical do país para esse jovem senhor. Sendo assim, seus pequenos furtos (alguns concedidos, confesso) foram de grande valia para mim e para sua formação musical. Afinal, tem furtos que vieram para o bem, isso talvez seja um belo exemplo disso. Musicalmente falando, é claro.

Atualmente, Franciele, assim como seu tio, cultua as artes, é uma entusiasta da cultura.  Não é raro encontrá-la cantando a plenos pulmões até perder a voz em shows nacionais e internacionais, como dos barbudos cariocas do Los Hermanos, do mano Caetano ou em São Paulo, no show do Coldplay, no Morumbi lotado, mesmo sendo abaixo de chuva torrencial. No último sábado (1/4), ela prestigiou a apresentação do rapper Emicida, no Auditório Araújo, na capital gaúcha. 

“Forte, resistente e potente. Sem sombra de dúvidas um dos melhores shows da minha vida”, definiu minha irrequieta sobrinha. E a mim, só cabe me orgulhar ainda mais por suas escolhas musicais. Já que considero Emicida uma espécie de novo Zumbi do século XXI.

 “Tudo, tudo, tudo que nóis é tem é nóis. Tudo, tudo, tudo”…

Creio que se um dia ela for falar em ancestralidade, inevitavelmente sempre lembrará desta noite.

Tags: André Valdezcoluna de Cultura Giro de GravataíEmicidashow do Emicida em Porto Alegre 2023
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