A tragédia e o conflito sempre fizeram parte da história humana, entrelaçando dramas que atravessam gerações. Na Aldeia dos Anjos, Gravataí do início do século XX, a simplicidade da vida rural não foi suficiente para impedir que paixões, disputas e destinos se cruzassem de forma trágica. Entre as lembranças de um tempo em que o progresso apenas despontava, uma história se sobressai: o primeiro homicídio oficialmente registrado na cidade, em 1912.
Foi na tarde do dia 16 de outubro, por volta das 16 horas, que a rotina de Manoel Martins da Silva chegou ao fim. O lavrador retornava da roça para casa, atravessando a mata conhecida como ‘Bugre’. Ao passar pelo trecho foi alvejado por tiros vindos do mato. A “indagação policial”- nome do documento registrado no livro 14 da Promotoria Pública de Porto Alegre, descreve detalhes: “Os projéteis penetraram na região lombar, saindo um deles na região torácica, lado direito, ficando o outro alojado a algumas vértebras na coluna vertebral”.

A investigação rapidamente apontou para João José de Azevedo, vizinho de Manoel e figura marcada por desavenças com a vítima. Testemunhas relataram sua presença nas proximidades do local do crime, carregando consigo um par de botas. Segundo os relatos, Manoel havia ocupado terras que João José e sua família reivindicavam como próprias, uma afronta que inflamou ânimos e resultou em ameaças públicas.
“João José e seus filhos, em companhia, nome o indivíduo de pessoa procedente, de nome José Antônio da Rosa, viviam acentuadamente intimados com Manoel Martins, tendo este, há pouco tempo, ocupado violentamente umas terras pertencentes a ele e às quais ele pretendia lavrar uma roça”, diz trecho do documento.
O inquérito contou com os depoimentos de 11 testemunhas, incluindo vizinhos, filhos e parentes do réu e da vítima. São eles; Josefino de Azevedo; José Antônio da Rosa; Antônio Rodrigues da Silva; Manoel Rosa de Oliveira; José Domingos Vicente; Joaquim Rodrigues da Silva; Silvério de Sá; Júlia Ignácia da Rocha; João Heine Martins; Maurício Luiz da Rocha; Antônio Fernandes Vallada.
No fim do documento, que está no arquivo do Ministério Público (MP), o relatório aponta a culpabilidade de João José, destacando haver indícios suficientes para incriminá-lo, porém o documento não esclarece se ele chegou a ser preso. O volume também não detalha a região da Aldeia em que o crime ocorreu.
Colaboração: Priscila Milán














