
A morte nunca é desejada, mesmo que seja a única certeza na vida. No entanto, mesmo o velório de uma pessoa querida é, muitas vezes, um momento de conforto em meio a tanta dor. E foi por muito pouco que uma família de Gravataí não enterrou um desconhecido no lugar de um parente
O motorista de ônibus Selmar Santos da Silva, faleceu na última segunda-feira (14) em decorrência do coronavírus. Ele estava internado desde o dia 5. Por volta das 14h, quando o óbito foi confirmado, a equipe do Hospital Dom João Becker entrou em contato com a família, para informar o ocorrido. Preocupados com a mãe, os irmão de Selmar pediram que a notícia fosse dada no hospital, onde a idosa encontraria recursos, caso passasse mal.

Enquanto providenciavam os trâmites funerários, Valcenir, irmão de Selmar, insistia para a equipe do hospital que queria ver o corpo, o que era negado por conta dos protocolos de prevenção à covid-19. “Eu tinha o sentimento que iríamos enterrar alguém que não era o meu irmão”, revela. Mesmo assim, o pedido não foi atendido, apenas o agente funerário, quando chegasse, poderia ter acesso ao local onde estava o corpo.
Pela manhã, quando amigos, colegas de trabalho e familiares já chegavam à capela, onde aconteceria o velório, a equipe de funerária chegou para buscar o corpo. Foi então que Valcenir conversou com o responsável da empresa, falando sobre a altura, o peso e o nome de Selmar, pedindo que ele verificasse.
Ao encontrar o único corpo que estava no local, o profissional viu que algo estava errado. A pessoa, que estava coberta, tinha um porte físico menor do que o motorista de ônibus. Ao ler o nome, percebeu que se tratava de uma outra vítima da doença. O corpo de Selmar não estava mais lá.
A ausência chegou a dar esperanças a Valcenir que seu irmão estivesse vivo, até que o engano foi desfeito. Um outra funerária, havia pego o corpo de Selmar por engano, durante a madrugada, e estava a caminho de Sombrio, onde uma outra família esperava. Feito o contato, o carro que viajava ao interior voltou e os corpos foram destrocados. Por volta das 12h de terça-feira, Selmar foi velado, sendo sepultado às 14h.
“O hospital pediu desculpas, tudo bem. Mas como não tinha alguém para fiscalizar? É fácil alguma funerária pegar um corpo errado? Será que isso não aconteceu com outras famílias e ninguém ficou sabendo?”, questiona Valcenir.
A direção do Hospital Dom João Becker afirmou que os pacientes estavam corretamente identificados e que está apurando os fatos. Confira a nota na íntegra:
Nota
Com relação ao ocorrido na última segunda-feira (14) no morgue, o Hospital Dom João Becker informa que os pacientes estavam perfeitamente identificados, conforme os padrões estabelecidos pelas normas da instituição. Sendo assim, o ocorrido está sendo averiguado em profundidade. Imediatamente após a constatação do problema, o Hospital contatou o agente funerário e participou ativamente da solução.













