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Home Artigos

Que herança estamos deixando para nossos filhos?

Jornalismo - Giro de Gravataí por Jornalismo - Giro de Gravataí
8 de setembro de 2026
em Artigos
Adotando um estilo de vida saudável: A busca pela melhora, não pela perfeição

Quando falamos em herança, normalmente pensamos em dinheiro, bens e patrimônio. Mas a herança mais importante não está em uma conta bancária, em imóveis, criptomoedas, carros ou em tudo aquilo que os nossos olhos conseguem enxergar.

Como costumo dizer aos meus alunos e às famílias que acompanho, e que tive a oportunidade de acompanhar ao longo de tantos anos de sala de aula, o verdadeiro valor está justamente naquilo que não podemos tocar. Está no que sentimos, mesmo sem enxergar. Está no amor, na presença, no diálogo, no abraço, no respeito e nos exemplos que deixamos. Porque tudo aquilo que possuímos um dia pode desaparecer, mas aquilo que ensinamos e fazemos alguém sentir pode permanecer por toda a vida.

Como professor de Educação Física, também acredito que precisamos falar sobre a herança da saúde. Que relação estamos ensinando nossos filhos a construir com a alimentação, com o próprio corpo, com o movimento, com o descanso e com o cuidado pessoal?

Não basta dizer para uma criança que ela precisa se alimentar bem e praticar atividade física se os nossos próprios exemplos mostram o contrário. A herança saudável também é construída à mesa, nas escolhas do cotidiano, nos momentos de movimento em família e na forma como cuidamos da nossa saúde física e emocional.

Existe ainda um assunto que me preocupa e me incomoda muito: a dificuldade de muitas famílias em conversar com seus filhos sobre o consumo de álcool. Os dados acendem um importante sinal de alerta. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE, 53,6% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já experimentaram bebidas alcoólicas. Isso significa que mais da metade dos adolescentes pesquisados já teve contato com o álcool. Além disso, 20,4% consumiram bebida alcoólica nos 30 dias anteriores à pesquisa.

Apesar de os números terem diminuído em comparação com 2019, não podemos considerar normal que mais da metade dos nossos adolescentes já tenha experimentado álcool. Não podemos tratar desse assunto somente quando o problema já estiver instalado. É necessário conversar antes, orientar, estabelecer limites e, principalmente, observar o exemplo que oferecemos dentro de casa.

Falar sobre álcool não significa incentivar o consumo. Significa proteger. Significa explicar os riscos, não normalizar o consumo precoce e preparar nossos filhos para enfrentarem as pressões dos amigos e dos ambientes sociais. O silêncio também educa, mas nem sempre ensina aquilo que gostaríamos.

Como professor, percebo diariamente que aquilo que acontece dentro de casa também chega à escola. Chega no comportamento, na dificuldade de concentração, no silêncio, na insegurança e na maneira como a criança se relaciona com colegas e professores. Muitas vezes, o comportamento é a forma que ela encontra para expressar aquilo que ainda não consegue dizer em palavras.

Fui pesquisar alguns dados do PISA e encontrei outra informação que merece a nossa atenção: estudantes cujas famílias costumam conversar com eles, fazer refeições juntas e perguntar sobre o seu dia na escola apresentaram resultados entre 16 e 28 pontos superiores em Matemática, mesmo considerando as diferenças socioeconômicas. Esses estudantes também demonstraram maior sentimento de pertencimento à escola, mais satisfação com a vida e menos ansiedade diante da aprendizagem.

E quantos outros dados poderíamos encontrar? Muitos. Mas a intenção deste texto não é apresentar um TCC, e nem pretendo convocar uma banca avaliadora. A intenção é fazer um alerta e deixar uma reflexão aos pais: quais heranças estamos escolhendo deixar para os nossos filhos?

Quando encontramos uma árvore e gostamos de descansar sob a sua sombra, poucas vezes lembramos que a natureza precisou fazer a sua parte e que, muitas vezes, alguém plantou aquela árvore muito tempo antes de chegarmos ali. Alguém preparou a terra, lançou a semente, cuidou, protegeu e esperou. Talvez essa pessoa nem tenha aproveitado toda a sombra, mas deixou algo para quem viria depois. A educação dos nossos filhos também é assim.

Precisamos escolher, hoje, quais sementes queremos plantar no coração dos nossos pequenos. Talvez alguns frutos levem tempo para aparecer, mas cada conversa, cada limite, cada gesto de carinho e cada bom exemplo ajudam essa árvore a crescer.

Sabe… às vezes costumo ser ainda mais reflexivo e penso que os meus filhos também são a minha própria herança para o mundo. Eles não são apenas os herdeiros daquilo que eu construí. De alguma forma, também representam uma parte daquilo que deixarei por aqui.

Não desejo que sejam cópias de mim ou que carreguem a obrigação de realizar os meus sonhos. Quero deixar ao mundo pessoas capazes de melhorar o seu próprio caminho e também o mundo daqueles que estiverem ao seu redor. Pessoas que saibam respeitar, acolher, cuidar, ouvir e estender a mão. Pessoas que compreendam que uma vida verdadeiramente valiosa não é medida somente pelo que conseguimos acumular, mas também pelo bem que fomos capazes de espalhar.

Como um bom aluno da vida, que gosta de aprender a todo momento, e também como um pseudocinéfilo, aprendo muito com os filmes. Uma frase do filme “Extraordinário” me chamou especialmente a atenção:

“Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.”

Essa é uma das sementes que já plantei no coração dos meus filhos e uma herança que todos nós podemos deixar por onde passarmos: sejamos gentis. Não podemos deixar somente uma herança material. Precisamos construir uma herança ética, afetiva, saudável e humana. Uma herança de valores, bons exemplos, alimentação equilibrada, movimento, diálogo, limites, cuidado, presença e gentileza.

Que herança estamos plantando hoje no coração dos nossos filhos?
E que herança eles poderão deixar para o mundo amanhã?

Porque os bens podem facilitar alguns caminhos, mas são o diálogo, o afeto, a saúde e os valores que ensinam como percorrê-los.

*Júnior Damiani é educador físico, fundador da VOM (Viva o Movimento) e professor do Colégio Dom Feliciano.

Fontes consultadas

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE 2024. Consultar publicação

OCDE. PISA 2022 Results, Volume II: Life at school and support from home. Consultar publicação

Tags: artigo sobre educação dos filhosJunior Damiani
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