Estou revisitando a obra de Renato Manfredini, que seria um sexagenário, completaria 65 anos, se estivesse vivo hoje. Pretendo lançar uma palestra sobre esse período messiânico e legionário, essa catarse geracional, propiciada pela banda brasiliense liderada por Renato Russo, o guru de uma era na música brasileira e no pop rock nacional.
Uma de suas grandes virtudes era ser um bom contador de histórias, o que era uma de suas características, além, claro, do forte apelo popular entre os jovens daquele período. Então, vejamos: no álbum “Dois”, de 1986, a canção “Eduardo & Mônica” fala dos desdobramentos de um jovem casal de classe média de Brasília que enfrenta seus altos e baixos e não sucumbe às evidentes diferenças sociais, intelectuais e etárias.
A música, que conquistou as rádios de todo o país, é uma espécie de comédia romântica brasileira, que anos depois se tornou o que chamamos de convergência artística/cultural. A história do filho de Dona Carminha ganhou as telas de cinema de todo o Brasil.
Em seu terceiro trabalho, “Que País é Este?!”, de 1987, na música “Faroeste Caboclo”, Russo conta a história do injustiçado João de Santo Cristo, que, além de enfrentar os dissabores do preconceito de uma sociedade elitista e segregadora, conta ainda com uma parcial falta de sorte, sem precedentes, e uma desilusão amorosa. Uma fatídica tragédia, que praticamente renderia uma espécie de cordel urbano.
A banda Legião toma de assalto, por mais de nove minutos, os ouvintes de todo o território nacional para nos contar essa história. A saga de sangue e dor de João de Santo Cristo também saiu das ondas radiofônicas e se tornou uma produção cinematográfica, levando muitos fãs às telonas para ver o desfecho do trágico triângulo amoroso, que teve como pivô da discórdia Maria Lúcia.
Em seu último álbum, “A Tempestade e/ou Livro dos Dias”, de 1996, a canção “Dezesseis / Música Incidental” narra, em pouco mais de cinco minutos, a efêmera vida de João Roberto, um jovem brasiliense que possuía a idade que dá título à música. Talentoso, sedutor e carismático, apaixonado por automobilismo e velocidade, ele ceifou sua vida num acidente de automóvel com o indefectível Opala azul, causando uma comoção generalizada entre seus colegas de escola, fãs e admiradores, e na região onde era conhecido como “o rei dos pegas na zona sul”.
A história, completamente “jamesdeaniana”, evidencia um caso de depressão, fruto de um coração partido. O que me causa verdadeira surpresa é que ainda não se tornou filme, nem peça de teatro ou musical. Essa música é praticamente um roteiro com spoiler, já pronto. (Ouçam!)
Bem, se algum cineasta, roteirista, dramaturgo, teatrólogo, produtor ou diretor ainda não se deu conta, minimamente, do seu potencial, peço que revisitem a obra do líder da banda Legião Urbana. Eu creio que ainda podem render boas histórias, um bom público e, quiçá, uma ótima bilheteria, mesmo que ele tenha partido há quase 29 anos.














