Já diz o provérbio popular: “ajoelhou, tem que rezar”. Mas nem todos conseguem realizar esse ato recheado de simbolismos. Pesquisa realizada no Brasil pela conceituada revista científica ABCS Health Sciences aponta que 25,6% dos adultos sentem dores crônicas no joelho, principalmente os mais velhos. Já os mais jovens sofrem com lesões traumáticas, como rupturas de ligamentos e lesões de meniscos. Dados da Revista Movimenta, outra publicação científica, apontam que a artrose (desgaste da cartilagem) lidera a incidência dessas condições, com 14,91% dos casos, seguida por problemas de menisco, com 14,36% do total.
As lesões nos joelhos geralmente causam bastante dor e, por si só, comprometem a qualidade de vida. Para evitá-la, os pacientes frequentemente deixam de praticar atividades físicas e recreativas, e até mesmo viajar. Muitos tornam-se sedentários, o que favorece o desenvolvimento de obesidade, hipertensão arterial e diabetes. Ou seja, também há um significativo aumento do risco cardiovascular.
Entre os tipos de lesões podemos destacar as geradas por trauma e as degenerativas, causadas pelo desgaste natural das articulações. As traumáticas são as meniscais, as ligamentares ou as fraturas, por exemplo. Já o desgaste é frequente na população mais velha, com início dos sintomas geralmente após os 50 anos de idade. A artrose é a condição mais comum. Ela é o desgaste da cartilagem, isto é, do tecido que reveste as extremidades dos ossos, que perde a sua superfície lisa característica e, por consequência, favorece o atrito entre eles, levando a um processo inflamatório crônico dentro da articulação. Essa condição gera muita dor e limita a mobilidade.
A artrose pode ocorrer de forma pós-traumática (após fraturas) ou associada ao envelhecimento normal do corpo. Existem fatores genéticos que influenciam no seu surgimento e que não são modificáveis. Pessoas do sexo feminino têm maior chance de desenvolvimento desse desgaste articular. Entre os fatores modificáveis, destacam-se a manutenção do peso adequado e o fortalecimento muscular.
Hoje temos um arsenal terapêutico muito maior do que há décadas. Atualmente, dispomos de infiltrações com ácido hialurônico, por exemplo, que nos ajudam no controle da dor. Também podemos lançar mão de outros medicamentos injetáveis à base de hidrogel e plasma rico em plaquetas, além de realizar o bloqueio dos nervos geniculares, que ficam em torno do joelho.
Essas terapias tiram o paciente do quadro de dor, o que permite iniciar um protocolo adequado de fisioterapia e fortalecimento muscular. Importante destacar que essas abordagens são para o tratamento da dor e não possuem a capacidade de regenerar a cartilagem. Até o momento, não há medicamento ou procedimento capaz de reparar esse tecido de forma consistente. No entanto, com o manejo da dor, conseguimos melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Meniscos e ligamentos
As lesões meniscais, por sua vez, podem ocorrer por trauma, geralmente após torções do joelho, ou por questões degenerativas, associadas à artrose. Os meniscos funcionam como amortecedores naturais do nosso joelho. As lesões traumáticas geralmente têm indicação de tratamento cirúrgico. Já as degenerativas são avaliadas com maior critério, pois na maioria dos casos são secundárias à artrose. E a cirurgia pode não eliminar a dor.
Outra lesão que tem muita incidência e visibilidade, principalmente no segmento esportivo, é a ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA). Essa é a principal estrutura estabilizadora do nosso joelho, e por isso é tão importante. Quando o ligamento se rompe, o joelho fica instável, ou seja, começa a apresentar falseios. Isso aumenta o estresse sobre as cartilagens e os meniscos, elevando o risco de lesão meniscal e da artrose. A indicação é praticamente unânime pela reconstrução cirúrgica do ligamento, reservando o tratamento conservador (sem cirurgia) apenas para pacientes idosos e com baixa demanda ocupacional.
Para prevenir lesões no joelho é necessário um bom controle de peso e alimentação saudável, pois a obesidade é um grande fator de risco. Também é indicado o fortalecimento muscular da coxa e da perna, para ajudar a manter a estabilidade articular e diminuir o estresse direto sobre a articulação. Com isso, o verbo “ajoelhar” vai continuar fazendo parte do seu vocabulário, seja para rezar ou para qualquer outra atividade cotidiana.
*Dr. Murilo Kubiak é médico traumatologista do Hospital Dom João Becker. Ele foi o entrevistado da última edição do Papo de Saúde, programa realizado em parceria com o Giro de Gravataí.
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