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A demolição do fitness: O que um pesquisador da USP e um filósofo sul-coreano podem nos ensinar sobre saúde, felicidade e movimento

Jornalismo - Giro de Gravataí por Jornalismo - Giro de Gravataí
24 de junho de 2026
em Artigos
Adotando um estilo de vida saudável: A busca pela melhora, não pela perfeição

Recentemente, tive a oportunidade de ler uma entrevista do professor e pesquisador Bruno Gualano, da Universidade de São Paulo (USP). Confesso que o título chamou minha atenção imediatamente. Afinal, como profissional de Educação Física há mais de duas décadas, não é todo dia que encontramos um dos maiores pesquisadores brasileiros da área defendendo a ideia de “demolir o fitness”.

A primeira impressão pode causar estranheza. Seria uma crítica à atividade física? Aos esportes; à musculação; à busca por saúde? Ao aprofundar a leitura, percebi que não era nada disso.

Na verdade, o debate proposto por Gualano é muito mais profundo e necessário. Sua crítica não é ao exercício físico, mas à forma como a sociedade transformou a saúde em mercadoria e o corpo em um projeto permanente de aperfeiçoamento.

Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos tantas academias. Nunca tivemos tantos aplicativos de treino. Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde. Nunca tivemos tantos suplementos, equipamentos esportivos, relógios inteligentes e influenciadores digitais ensinando como viver melhor.

Ao mesmo tempo, observamos um crescimento expressivo dos índices de ansiedade, depressão, insatisfação corporal e sofrimento emocional.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 280 milhões de pessoas vivem com depressão no mundo. No Brasil, somos um dos países com maiores índices de ansiedade do planeta. Como explicar esse paradoxo? Talvez uma das respostas esteja fora das academias e dentro da filosofia.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, autor do livro “Sociedade do Cansaço”, afirma que vivemos uma transformação silenciosa. Se antes a sociedade era marcada pela disciplina e pela obediência, hoje ela é marcada pelo desempenho.

Antes, as pessoas ouviam: “Você deve.” Hoje escutam: “Você consegue.” Parece libertador. Mas existe uma armadilha. Quando acreditamos que tudo depende apenas do nosso esforço individual, também passamos a acreditar que todo fracasso é culpa exclusivamente nossa.

Não basta trabalhar. É preciso produzir mais. Não basta estudar. É preciso ser excepcional. Não basta praticar atividade física. É preciso transformar o corpo. Não basta estar saudável. É preciso parecer saudável.

A lógica do desempenho invadiu a relação que temos com o próprio corpo.

Quando alguém emagrece, surge a necessidade de definir. Quando define, precisa ganhar massa muscular. Quando ganha massa muscular, precisa secar. Quando seca, precisa parecer mais jovem. Quando parece mais jovem, precisa manter resultados cada vez maiores.

A linha de chegada nunca chega. E talvez seja exatamente esse o ponto central da crítica de Bruno Gualano. O problema não está na musculação. Não está na corrida. Não está no esporte. O problema surge quando o exercício deixa de ser uma ferramenta de saúde e passa a ser uma obrigação estética. Quando o corpo deixa de ser um companheiro de vida para se transformar em uma vitrine.

A ciência é clara ao demonstrar os benefícios da atividade física. Exercitar-se regularmente reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, alguns tipos de câncer, além de melhorar a saúde mental, a qualidade do sono e a expectativa de vida.

Mas talvez tenhamos esquecido uma pergunta fundamental: Por que nos movimentamos?

Como professor de Educação Física, essa reflexão me toca profundamente. Porque o movimento humano existe muito antes da academia. O movimento está na criança que brinca, corre, pula, explora o ambiente e descobre o mundo através do corpo. Está no jogo espontâneo, na imaginação e na construção das primeiras relações sociais.

O movimento está no adolescente que joga bola na praça, anda de bicicleta ou descobre um esporte que lhe dá sentido. Está no adulto que caminha para aliviar o estresse de um dia difícil. Está na família que passeia junta em um parque. Está no idoso que preserva sua autonomia e continua participando ativamente da vida.

O movimento é uma característica essencial da condição humana. Antes de existir qualquer conceito de fitness, já existia o ser humano se movimentando para viver. Caminhando. Caçando. Brincando. Dançando. Explorando. Construindo relações.

Talvez a maior contribuição da Educação Física contemporânea seja justamente lembrar disso. Nosso papel não é apenas ensinar esportes ou melhorar indicadores fisiológicos. É ajudar as pessoas a construírem uma relação saudável com o próprio corpo. Uma relação baseada no respeito e não na culpa. No prazer e não na punição. Na saúde e não apenas na aparência. No significado e não apenas na performance.

Movimento não é castigo. Não é dívida. Não é compensação por aquilo que comemos. Não é uma obrigação imposta pelas redes sociais. Movimento é expressão. Movimento é liberdade. Movimento é encontro. Movimento é saúde. Movimento é vida.

Talvez a verdadeira revolução da saúde não esteja em construir corpos perfeitos. Talvez esteja em formar pessoas mais felizes. E talvez a maior missão da Educação Física no século XXI não seja produzir atletas, seguidores ou consumidores. Seja formar seres humanos capazes de compreender que seu valor não está no corpo que exibem, mas na vida que conseguem viver através dele. Porque o movimento sempre foi, e continuará sendo, muito maior do que qualquer padrão estético.

*Júnior Damiani é educador físico, fundador da VOM (Viva o Movimento) e professor do Colégio Dom Feliciano.

Tags: artigo sobre movimentoJunior DamianiVOM
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