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Amon Costa | Os batismos e a Aldeia

Jornalismo - Giro de Gravataí por Jornalismo - Giro de Gravataí
10 de dezembro de 2021
em Especial
Amon Costa | Os batismos e a Aldeia

A Catedral Metropolitana de Porto Alegre - Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus


Igreja Matriz Nossa Senhora dos Anjos em 1912

*A coluna de hoje é uma parceria e é um fragmento da pesquisa do Vinicius Almeida

Antes da fundação da Aldeia dos Anjos, os que viviam por aqui eram assistidos religiosamente pela Capela de Viamão. Com o traslado dos indígenas missioneiros e os assentamentos por estas bandas, o governante da época, José Marcelino de Figueiredo, que assumiu em abril de 1769, começou a organização administrativa da recém-formada Aldeia dos Anjos. Marcelino, determinando que fosse criado o livro de registros diversos, relativos aos Povos de Nossa Senhora dos Anjos, no dia 22 de dezembro de 1769, contribuiu para o registro dos nomes dos primeiros indígenas da aldeia, todos rebatizados com novos nomes cristãos.

A igreja tinha como função também: os registros cartoriais, batizados, casamentos e óbitos. Em 1781, foi batizado aqui o menino Feliciano José Rodrigues Prates, que depois veio a ser o primeiro bispo do Rio Grande do Sul, com o nome de Dom Feliciano.

Passando mais de meio século da chegada dos indígenas, em 1814, foi feito um levantamento da população de Gravataí. As estimativas eram as seguintes: a freguesia reunia 2.653 habitantes, sendo 1292 brancos, 716 escravos, 389 negros e pardos livres, e 256 indígenas.

Ainda sabemos muito pouco sobre a maioria destes habitantes, mas, ao longo de pesquisas, esbarramos em documentos que nos trazem algumas informações. Foi o caso dos batismos registrados em Porto Alegre, como veremos a seguir.

Eram os fins do ano de 1820 e, em 19 de novembro, apresentava-se na Igreja da Madre de Deus de Porto Alegre, Custódia Maria, que diante do padre informava ser mãe de Manoel, nascido no terceiro dia daquele mesmo mês. No registro de batismo daquele menino, constava assim: “filho natural de Custódia Maria, parda forra, natural d’Aldeia dos Anjos: neto paterno de Francisco, e de Rosa Maria”.

É provável que não se soubesse bem de onde vinham os avós maternos de Manoel. Os infortúnios da escravidão, dentre outras coisas, poderiam apagar a história das pessoas.

Diante das dificuldades em contrair matrimônio oficial, os mais desfavorecidos, escravizados apenas “juntavam seus trapos”, ofensa moral gravíssima naquela época.

Em adição a essa informação, “pardo”, no contexto do Brasil Colonial (e em seus resquícios imperiais), poderia ser alguém que fosse filho de pessoas já alforriadas; mas também poderia ser uma atribuição dada aqueles considerados mestiços. Em um mundo de brancos e não brancos como aquele, diz-nos a historiadora Silvia Lara, as definições de cor eram ambíguas e conflituosas.

A Catedral Metropolitana de Porto Alegre – Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus

No dia 4 de março de 1824, o reverendo Inácio Soares Viana estava a postos para mais um dia de batismo na Igreja Matriz de Nossa Senhora de Madre de Deus, em Porto Alegre. Naquela paróquia, fundada em 1772, batizavam-se todos aqueles que moravam na freguesia e nas cercanias. Pretos, pardos, brancos e indígenas; livres, escravizados, libertos e forros. Os deveres e costumes dos bons cristãos eram naquela igreja cumpridos, sob os olhos de Deus, dos padres e da sociedade colonial e imperial.

Naquele mesmo dia 4 de março, não se sabe bem se vinda dos becos e vielas que cresciam por aquelas bandas, ou de uma longa viagem de carroça, apresentava-se Cândida Maria dos Santos. O objetivo daquela mulher – não se sabe se o único – era batizar a sua filha. Cândida assim o fez, e sob as águas bentas determinou que o nome da menina seria Belmira.

O bom reverendo Inácio, a propósito do rito de batismo, cumpriu com aquelas determinações e, no livro de número 6 daquela freguesia, anotou: “nascida aos vinte dias do mês de novembro do ano próximo, filha natural de Cândida Maria dos Santos, natural d’Aldeia: neta materna de Alexandre José dos Santos, natural da Ilha de Santa Catarina, e de Domingas Antônia de Jesus, natural de Rio Pardo. Foram padrinhos Venceslau José Machado e sua mulher, Luzia Rosa d’Ávila”.

As informações podem parecer estranhas, mas explicaremos: nascer no “ano próximo”, naquele contexto, queria dizer que se tinha nascido no ano anterior, e ser “filha natural”, ali, queria dizer que a pequena Belmira fora concebida de uma união que não havia sido sacramentada sob as regras da Igreja, outra das determinações estipuladas pelos códigos coloniais que citamos acima. Em outras palavras, os pais da menina não eram oficialmente casados.

Mas outra das informações já deve ter saltado aos olhos do leitor: Cândida era natural da Aldeia! E é essa mesma que você está pensado, a Aldeia de Nossa Senhora dos Anjos, que, às vezes, poderia aparecer nos registros como “Aldeia dos Anjos”, “freguesia da Aldeia”, ou só “Aldeia” mesmo, como se viu no registro de Belmira.

Porto Alegre pelas docas do mercado Público, (Coleção Luiz Terragno- Museu Joaquim José Felizardo)

Em 20 de abril de 1824, um casal procurou a Igreja Matriz para fazer o mesmo. A criança chamava-se Caetano, e, dessa vez, quem gravou foi o padre Francisco de Paula Macedo: “nascido aos doze do dito mês, filho legítimo de José Fernandes da Cunha e Genoveva Luiza, naturais da Aldeia: neto paterno de Antônio Fernandes da Cunha, natural d’Aldeia dos Anjos e de Inácia Maria, natural da Ilha de Santa Catarina; e materno de Antônio de Souza d’Oliveira, e de Luiza Maria, naturais das Ilhas. Foram padrinhos Caetano Joaquim da Silva e Maria Luiza das Dores”.

Outras tantas informações que nos ajudam em uma melhor compreensão do passado e suas particularidades! Novamente, observamos a presença de pessoas vindas de Santa Catarina, como a avó paterna de Caetano e, dessa vez, nos deparamos também com algo muito característico daquelas décadas decorridas entre a segunda metade do século XVIII e o início do XIX, isto é, a presença dos imigrantes açorianos. Como podemos ler, os avós maternos do batizado eram “naturais das Ilhas”, e isso quer dizer que vinham das Ilhas dos Açores.

Livro 6, Igreja Matriz Porto Alegre, registro de batismo Caetano

Houve tempos em que as narrativas da história só reservavam lugar para os grandes feitos e para homens considerados heróis. Ainda que guardem a sua importância, essas abordagens apagaram outras muitas histórias de pessoas que contribuíram à sua maneira para o curso do tempo: aquelas que atravessaram oceanos e fugiam de guerras ou da carestia; aquelas que eram escravizadas e conquistavam sua liberdade; aquelas indígenas que, desde muito, tiveram que se adaptar e resistir para garantir um lugar na sociedade que se desenvolvia.

Para muito além dos nomes conhecidos até hoje como: Gomes, Goulart, Peixoto, Carvalho, Fonseca, Fialho, Dutra, Sarmento, Cardoso, Pimentel, Cunha, Oliveira, Pinto Bandeira etc., as histórias desses indivíduos “desconhecidos” e de seu convívio precisam cada vez mais visibilidade. Afinal, muitos anônimos construíram e estruturaram a sociedade que possuímos hoje.

*Vinicius Almeida é mestre em História. Atualmente, cursa o doutorado em História na UFRGS.

Tags: Aldeia dos AnjosbatismoGravataíHistóriaPorto Alegre
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