A relação entre arte e saúde atravessa diferentes áreas do conhecimento, da Psicologia e da Psicanálise à História da Arte, à Neurociência e à Arquitetura. Em Gravataí, esse encontro ganha uma expressão particular nos ambientes da Clínica Espaço Vital, que atualmente abriga uma exposição temporária de esculturas de Mauro Souza da Costa (1951–2023), artista gaúcho radicado em Florianópolis.
A exposição possui uma característica singular: não está instalada em uma galeria ou museu e não é aberta à visitação pública. As obras ocupam os próprios ambientes da clínica, estabelecendo uma interlocução entre produção artística, espaço terapêutico, memória e construção de significados.
Fundada em 2002 pela psicóloga Márcia Elisabete Wilke Franco, em sociedade com o engenheiro Alexandre Adalberto Wilke, a Espaço Vital consolidou sua atuação nas áreas de psicoterapia, avaliação psicológica, formação e supervisão clínicas. Atualmente, a instituição tem como sócios Márcia, Letícia W. Franco Martins e André Wilke Franco.
Nessa nova configuração, a Espaço Vital também se constituiu como instituição de Formação Psicanalítica em Gravataí, ampliando sua atuação e estabelecendo outras formas de diálogo com a comunidade. A arte, em suas diferentes expressões, ocupa lugar de relevância nesse processo, inclusive por meio de iniciativas como o Cine Vital e o Espaço Literário. É justamente nesse contexto que as esculturas de Mauro Costa encontram um significado que ultrapassa a função decorativa.

A Psicologia Ambiental e a Neuroestética vêm estudando a influência dos ambientes e das experiências estéticas sobre aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais. Sob essa perspectiva, uma obra de arte inserida em um espaço de cuidado pode estimular observação, contemplação, memória e interpretação. O ambiente deixa de ser apenas o lugar onde ocorre o atendimento e passa também a participar da experiência de quem o frequenta. A trajetória de Mauro Souza da Costa dialoga de maneira especialmente interessante com essa proposta.
Nascido em Porto Alegre, em 21 de fevereiro de 1951, Mauro foi discípulo do escultor Vasco Prado, uma das referências da escultura brasileira do século XX. Radicado posteriormente em Florianópolis, desenvolveu uma produção marcada pelo trabalho com madeira, pedra e metal, explorando formas orgânicas e as relações entre escultura, arquitetura e natureza.
Ao longo de sua trajetória, participou de exposições, projetos arquitetônicos e encontros de artistas. Na década de 1970, frequentou encontros culturais realizados em Morungava, em Gravataí, estabelecendo vínculos com artistas e colecionadores da região. Parte de sua produção encontra-se hoje em acervos particulares no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Há também uma característica de sua obra que ajuda a compreender a força dessa exposição dentro de uma clínica psicológica. Suas esculturas apresentam uma linguagem predominantemente não figurativa. Elas não oferecem necessariamente ao observador uma resposta pronta. Permitem interpretações, associações e diferentes leituras. Talvez esteja justamente aí um dos pontos mais interessantes desse encontro entre arte e psicanálise.
Diante de uma escultura, cada pessoa pode construir sentidos a partir de sua própria história, memória e experiência. De maneira semelhante, o processo terapêutico trabalha com a elaboração de significados que não são universais, mas construídos pelo próprio sujeito. Uma mesma obra pode despertar sentimentos e interpretações completamente diferentes em duas pessoas. Arte e cuidado, portanto, encontram-se no território da subjetividade.

Historicamente, essa aproximação não é recente. Desde a Antiguidade, espaços relacionados ao cuidado incorporavam jardins, esculturas e elementos arquitetônicos à organização dos ambientes. No século XX, o desenvolvimento da arteterapia e, mais recentemente, das pesquisas relacionadas à Neuroestética ampliou o interesse científico sobre as relações entre experiência artística, atenção, memória, percepção e emoções.
Na Espaço Vital, essa interlocução entre clínica psicológica, arte e psicanálise ganha corpo e, literalmente, se materializa nas esculturas de Mauro Costa distribuídas pelos ambientes da instituição. A exposição também cumpre outra função importante: preservar e fazer circular a memória do artista.
Mauro Souza da Costa faleceu em 19 de julho de 2023. No ano seguinte, Florianópolis instituiu, por meio da Lei Municipal nº 11.225/2024, a denominação Unidade Cultural Mauro Souza da Costa para o espaço cultural localizado no Rio Vermelho. Em 2025, sua produção voltou a ganhar destaque durante a 14ª Bienal do Mercosul, quando nove esculturas do artista integraram uma mostra póstuma. Agora, parte dessa trajetória encontra um novo espaço em Gravataí, cidade com a qual Mauro já havia estabelecido relações artísticas décadas atrás. Há algo de simbólico nesse retorno.
As esculturas que nasceram das mãos de um artista que trabalhou intensamente com a madeira, pedra e metal passam a conviver diariamente com um espaço dedicado àquilo que não podemos tocar: lembranças, sentimentos, conflitos, afetos e experiências humanas. Entre a solidez da escultura e a subjetividade da palavra, estabelece-se um diálogo.

A presença das obras de Mauro Costa na Clínica Espaço Vital demonstra que um ambiente terapêutico também pode ser constituído pelos elementos culturais que o cercam. Nesse sentido, suas esculturas passam a integrar o cotidiano da instituição não apenas como obras expostas, mas como parte de uma experiência de acolhimento, contemplação, memória e reflexão.
*Este artigo foi escrito pelo professor, historiador e escritor Amon da Costa.













