
Um edifício residencial no Centro de Gravataí virou palco para uma guerra entre um grupo de moradores e a gestão do condomínio. Suspeitando da síndica e da empresa contratada para a administração do prédio, alguns condôminos contrataram um perito para auditar as finanças do edifício. A reportagem do Giro de Gravataí teve acesso aos dois laudos resultantes da auditoria, um assinado no final de setembro do ano passado e outro, complementar, de abril deste ano.
O primeiro documento aponta uma queda elevada nos valores em caixa. Entre setembro de 2018 e agosto de 2019, as reservas do condomínio caíram de R$ 131.108,29 para R$22.479,05. Já o laudo complementar mostra que em fevereiro, o saldo era negativo.

De acordo com a advogada que representa o grupo de moradores que encomendou a perícia, a contratação aconteceu por que “eles enxergavam inconsistências nos extratos fornecidos pela administradora em seu site e não tinham seus pedidos de esclarecimentos atendidos na plenitude”, destacou. Ela ainda afirmou que não existe nenhuma perseguição à síndica ou a empresa, o que ocorre é que os moradores que ela representa identificaram irregularidades e buscam “fazer valer os valores de uma boa administração”.
O condomínio é gerido pela síndica com o auxílio de uma empresa terceirizada. Em conversa com a nossa reportagem, os sócios da administradora informaram que, de fato, houve uma redução de caixa no período, em decorrência de investimentos e melhorias realizados, além de uma queda de arrecadação em um primeiro momento da pandemia do coronavírus.
A síndica salientou, no entanto, que a partir dos decretos de isolamento social, foram realizadas negociações e que o número de inadimplentes neste momento é um dos mais baixos. Ela também ressaltou que o caixa voltou a ter saldo positivo. A gestora ainda afirmou se sentir perseguida por um grupo de moradores que perdeu a última eleição. Na mesma linha, os sócios da empresa que administra o condomínio argumentaram que têm seu trabalho atrapalhado por notificações constantes vinda deste mesmo grupo de condôminos.
Perito identificou possíveis irregularidades
De acordo com o perito contábil, foram analisadas as contas do condomínio, presentes no site da administradora e outros portais como o da Secretaria da Fazenda e o da Receita Federal. O laudo aponta ainda que o condomínio tem pendências em relação à declaração e ao recolhimento de impostos e também afirma que os dados do portal da administradora não são confiáveis.
“Identificamos diferenças de saldos nos extratos e alteração de valores após a data de encerramento no portal eletrônico da Administradora, além de não identificarmos no site o ‘espelho’ do extrato bancário para a validação dos saldos. Isso significa que o saldo demonstrado no portal não está conciliado com nenhuma fonte financeira fidedigna ou validada” afirma o documento.
Em relação a isso, a empresa afirmou que o profissional que emitiu o laudo não fez nenhum questionamento em relação às informações. “Em momento algum ele nos notificou ou pediu esclarecimentos sobre o que viu como irregularidade. Sempre contratamos empresas para auditar as nossas contas e convidamos o auditor para participar da assembleia, onde as finanças são apresentadas e aprovadas pelos moradores”, explicou uma das sócias da administradora.
Entre os problemas apontados pelo perito, estão mudanças em valores após o fechamentos de meses. Um exemplo é o mês de julho de 2019. Um relatório emitido no início de agosto, mostrava que o saldo do condomínio ao final do sétimo mês era de R$ R$ 28.410,79. Já no demonstrativo extraído em setembro, o saldo apontado para o final de julho era de R$ 26.724,11

Saldo final de julho apareceu diferente nos extratos tirados em agosto e setembro. Imagem: Reprodução
A empresa que administra o condomínio explicou que estas diferenças podem ocorrer em um prazo de 90 dias, que é o período em que os valores são processados no sistema. De acordo com eles, o fechamento ocorre neste ciclo, enquanto as atualizações vão sendo colocadas, o que pode causar esta diferença.

Conforme o texto, o saldo final de alguns meses é diferente do inicial de meses seguintes. É o que ocorreu em junho de 2017, quando o condomínio terminou o mês com um saldo de R$ 126.266,62. No entanto, o valor o início de julho era diferente, R$ 127.851,61. O laudo técnico afirma que os extratos não apontam justificativa para a inconsistência dos dados.
A diferença também foi atribuída, pela administradora do condomínio a possíveis falhas no processamento naquele período, além de possíveis pagamentos que foram compensados após a emissão do saldo.

Ainda segundo o laudo diversos pagamentos foram realizados sem comprovantes, entre eles um no valor de R$23.348,26. Somado a outros recibos e notas fiscais que não encontram comprovantes de pagamentos correspondentes, os valores pagos sem comprovação entre janeiro de 2018 e agosto de 2019 totalizam R$ 25.188,26.
No mesmo período, conforme o perito, outros R$ 2.635,00 aparecem como valores pagos em duplicidade. Isto é, a mesma nota é apresentada para justificar mais de um pagamento.
Segundo um dos donos da empresa que administra o condomínio, os números não são verdadeiros. “Os pagamentos duplicados não existem, são pagamentos distintos em meses distintos”, argumentou, informando que a situação também foi esclarecida aos moradores”. Quanto aos pagamentos apontados como sem comprovação, ele informou que todos os pagamentos tem seus devidos comprovantes.
Eleição também é motivo de discussão
Além das contas, a eleição da atual síndica, subsíndico e conselho fiscal do Garden também é objeto de disputa. De acordo como o grupo de moradores que contratou o perito contábil, a assembleia que elegeu a atual gestão do condomínio, ocorrida em março de 2019, contou com a presença de participantes utilizando procurações para representar proprietários de apartamentos, no entanto, os proprietários também assinaram a lista de presença. Sendo assim, os condôminos questionam a lisura do pleito, entendendo que alguns apartamentos podem ter tidos votos em duplicidade.
A advogada do grupo de moradores salientou que a possibilidade de terem sido registrados votos em duplicidade coloca em dúvida a idoneidade do pleito, o que motiva a ação movida pedindo que seja anulada a reunião que elegeu a atual gestão. “A anulação requerida é com base na ausência de transparência”, afirmou. Ela ainda destacou que embora represente um grupo de oito moradores, as convocações realizadas contam com mais de quarenta assinaturas em diferentes ocasiões.
A síndica afirmou que, de fato, alguns moradores podem ter assinado a ata para participar da reunião, mas que não foram habilitados a votar. Ela cita o exemplo de uma condômina que estava em aula e chegou já com a reunião em andamento, enquanto outra pessoa estava credenciada para votar. No mesmo sentido, um dos sócios da administradora salientou que “mesmo que houvesse algum voto em duplicidade, o que não houve, a diferença de entre as chapas foi de 19 votos para a vencedora, então, não teria diferença no resultado”, argumentou.














