Conteúdo atualizado em 9/12.
Este domingo (8/12) marca o fim de uma era boêmia e a força da grana, que não irá destruir coisas belas…
Pra quem já leu minhas mal traçadas linhas por aqui, já se acostumou a me ver discorrendo acerca de músicas e outras melodias. Mas infelizmente, hoje, eu vim desafinar, trocar o tom, desafiar o coro dos contentes e já com coração apertado, falar em tom de despedida, evidenciar uma saudade que tão cedo, não irá se aplacar.
“Bar doce bar”… assim, eu carinhosamente me referia ao que chamávamos de “QG”. O Gringo’s Bar, que, literalmente, foi minha segunda casa durante o período acadêmico, seja saciando minha fome, afogando minhas mágoas ou celebrando com amigos e bebendo de bem com vida, está encerrando suas atividades no local e passando a concentrar o atendimento em outro estabelecimento na mesma rua, no bairro Salgado Filho.
Quem frequentou a casa da Rua Nestor de Moura Jardim, 129, frequentou. E quem não frequentava, não o frequentará mais. A não ser, é claro, para dar manutenção ao seu saudosismo e revisitar reminiscências que vão das tristes derrotas a históricas e heroicas vitórias que aquele bar serviu de cenário. Palco de lágrimas e sorrisos, derrotas e vitórias, tristezas e alegrias, aquele ambiente deu abrigo a esses ambíguos sentimentos.
Templo dos sedentos boêmios da cidade, reduto dos fanáticos colorados, arena de embates que propiciava acirradas discussões acerca da política e divergências ideológicas e de posições clubísticas. Um lugar para encontrar os amigos e celebrar a vida, muitas vezes no romper da madrugada, nas trocas de confidências com leais amigos.
A cerveja gelada, a conversa fiada, uma troca de olhares, um aperto de mão, um abraço fraterno. A dança no salão vazio. O vazio das solidões resilientes em cada mesa daquele bar, o copo cheio… muitas vidas, cheias de sonhos e desejos embriagados em típicas “conversas de botequim”, parafraseando o genial e atemporal Noel Rosa.
O local do glorioso e amado Gringo’s Bar está prestes a se tornar um grande empreendimento de Gravataí, segundo informações, atendendo, ao apelo imobiliário. Vale destacar que os proprietários estão à frente de outro negócio agora, também na Rua Nestor de Moura Jardim. No entanto, o cultuado espaço, que outrora foi palco de noites antológicas e porres homéricos, e onde muitas músicas foram compostas, fará uma festa de despedida neste domingo, a partir das 12h. Todos os colorados estão convocados.
Toda a cena política e artística da cidade já transitou pelas mesas do Gringo’s Bar. Ébrios, pensadores, tiranos e musas. Nossa “lancheria do Parque gravataiense”, que era um lugar democrático da cidade, sai de cena da vida noturna para ingressar nas futuras lembranças dos frequentadores.
“O antigo lar da Linha Vermelha, o outrora ponto de encontro de amizades e amores em dias de jogos do Internacional, inflamados pelos discursos motivacionais e prosas do Pepe e o icônico sorriso e simpatia de Dona Marlene. Elementos esses que, por mais que possam existir em outras locações, ficarão eternizados na história do número 129 da Rua Nestor de Moura Jardim”, confidencia o já saudosista Arthur Gonçalves, um dos coordenadores da Linha Vermelha.
Já para Juliana Ávila, “não havia necessidade de sequer, combinarmos previamente de nos encontrarmos lá. Ir ao Bar do Gringo, era praticamente uma regra irrefutável, estava no inconsciente dos seus frequentadores. Afinal, encontrar um amigo ou amiga lá era algo humanamente impossível de não acontecer. Todos temos uma história pra eternamente nos lembrar daquele espaço acolhedor”.
Em que pese a espera resiliente pela carne assada nos churrascos dominicais pelo sapiente e de pouca fala, mas com seu característico humor ácido, o véio Gringo, um dos proprietários da casa e sócio fundador, ou pelas mãos mágicas de Adiles, que fazia pessoas atravessarem a cidade para provarem a sua famosa salada de maionese – que deveria ser alvo de estudo!
As melodiosas noites de Música Popular Brasileira, embaladas pelo violão e a voz de Tiago Ramos, que neste período era Rosa. A irrequieta sapiência de um dos colorados mais famosos do bar travestida em suas indefectíveis camisetas vermelhas: assim Seu Sadi era visto, ostentando sua imponente barba e o seu humor peculiar… São algumas memórias que guardarei.
As noites de quarta-feira nunca mais foram as mesmas depois fundação da Confraria da 79, que reunia um seleto grupo de amigos, que além de confraternizarem, se tornaram atração gastronômica do recinto, onde sempre havia uma apresentação luxuosa das danças do serelepe e lendário Negão Sessenta.
Por fim, chegamos ao término de uma era, que já está deixando saudade e permanecerá para sempre na memória de quem um dia teve oportunidade de tomar uma saideira ou chegou a tempo, antes do apagar das luzes, de ouvir quase que de forma professoral e poética o Ede proferir sua eternizada frase: “bora, gente?!”
Infelizmente, ainda não há ressarcimento prévio para o tempo e a saudade. Aliás, garçom traga mais uma bem gelada, por favor. Preciso de uma bebida forte e de abraços sinceros!


















