
“Oportunidade”. Esta foi uma palavra que se repetiu várias vezes no bate-papo promovido na tarde desta quinta-feira (9/2), no Instituto Penal de Gravataí. Uma oportunidade para trabalhar, para mostrar que aprendeu com os erros, para mudar a própria vida e a de outras pessoas. Não são objetivos fáceis, tampouco impossíveis. Essa foi a mensagem destacada por Rodrigo Sabiah para os homens que cumprem pena na cidade, no regime semiaberto. Egresso do sistema prisional gaúcho e hoje palestrante, ele esteve no presídio do município a convite da nova diretora, Ana Carolina Mezzalira, e do Conselho da Comunidade, que busca preparar os apenados para o retorno ao convívio social.
Na palestra, Rodrigo contou como o trabalho de reciclador transformou sua vida e a dos familiares. “Através da reciclagem, meu irmão e eu conseguimos comprar uma casa para a nossa mãe. Consegui adquirir um carro. Coisas que o crime nunca me deu”, relatou aos presos. “Quando decidi mudar de vida, não mudei só a minha vida. Tive que ser muito forte para correr atrás dos meus objetivos”, acrescentou, motivando o grupo a não desistir diante das dificuldades que surgirão no caminho.
O trabalho com a reciclagem e o voluntariado em presídios e comunidades carentes contribuiu para que Sabiah fosse aprovado para uma bolsa de estudos do programa Global Freedom Fellowship. Trata-se de uma iniciativa da ONG Incarceration Nations Network, que visa capacitar agentes de mudança social e combater o preconceito com pessoas que passaram pela prisão. O palestrante é o único egresso do sistema prisional brasileiro selecionado para participar do projeto.
O gaúcho vai se unir a outras 16 pessoas da África do Sul, Argentina, Colômbia, El Salvador, Estados Unidos, Holanda, Nigéria, Quênia, Reino Unido e República Tcheca para compartilhar vivências do tempo na prisão e após o cumprimento da pena. Ele embarca no dia 19 de março e ficará cerca de duas semanas na Cidade do Cabo e em Joanesburgo, na África do Sul.
Durante a explanação no Instituto Penal de Gravataí, Rodrigo também enfatizou como é importante adquirir conhecimento para concretizar as metas e realizar sonhos. Nesse sentido, além de estudos, ele recomendou a leitura, algo que o ajudou muito durante o período no cárcere. “Nos momentos difíceis, eu lia”, recordou. Com outra visão de mundo, Sabiah passou a se dedicar ainda à literatura e lançará, este ano, um livro de poesias.

Nova gestão e projetos
O presídio de Gravataí está sob nova direção. A advogada Ana Carolina Mezzalira, servidora da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) há mais de oito anos, assumiu a função em 23 de janeiro. Natural de Santa Maria, ela reside em Gravataí há uma década e também é docente do curso de Direito da Faculdade CNEC.
A nova administradora explica que a instituição dará continuidade ao trabalho voltado à ressocialização dos presos, o que inclui projetos em parceria com outras entidades e voluntários. O Conselho da Comunidade desempenha papel fundamental, neste caso. Reeducar o apenado e proporcionar formas de reintegrá-lo à sociedade é um dos objetivos do grupo, constituído por membros da sociedade civil organizada e demais interessados.
O Conselho da Comunidade é coordenado pela Vara de Execuções Criminais da Comarca de Gravataí e presidido pela juíza Valéria Willhelm. Um dos projetos desenvolvidos com os presos por meio da colaboração da equipe é a Remição pela Leitura, regulamentado pela Susepe como uma alternativa para reduzir a pena. A possibilidade é que, por meio da leitura de livros do acervo do Instituto Penal, sejam produzidos relatórios. Após entrega e validação de cada material, quatro dias da pena são abatidos. Mais do que um benefício, a ação busca estimular o gosto pela leitura e os estudos, aspectos importantes no processo de ressocialização. Conforme a diretora do presídio, atualmente a instituição busca professores voluntários para o projeto.
Auxiliar os homens que cumprem pena no município a conquistarem oportunidades no mercado de trabalho é outra meta da direção e do Conselho da Comunidade. Ana ressalta que dos 58 presos, 22 ocupam postos de trabalhos externos, atualmente. A cadeia possui termo de cooperação com as Prefeituras de Gravataí e Cachoeirinha para vagas de emprego. Em Cachoeirinha, cinco pessoas estão trabalhando em setores vinculados à mobilidade urbana. Já em Gravataí, nove trabalham no Canil. Há ainda parcerias com organizações privadas.














