Os impactos da maior catástrofe climática do Rio Grande do Sul na economia foram discutidos na quinta-feira (13/6) durante a edição mensal do Café com Negócios da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Gravataí (Acigra), que teve como palestrante o gerente de Expansão da Sicredi Origens RS, Cristiano de Ávila. Especialista em crédito, o convidado apresentou a empresários da região algumas linhas de financiamento disponíveis para organizações impactadas pelas enchentes no estado.
“As linhas de crédito emergenciais, disponibilizadas a partir de decretos governamentais, começaram a ser anunciadas na segunda quinzena de maio e, desde então, a procura por informações tem sido gigantesca nas agências da Sicredi Origens RS, principalmente pelos empresários de cidades em estado de calamidade pública. Estes municípios são os mais beneficiados, aliás, com as condições dessas medidas governamentais”, comentou Cristiano à reportagem do Giro de Gravataí antes da abertura oficial do evento.
A busca por mais informações sobre as linhas de crédito para empresas no período pós-enchentes também foi destacada pela gerente da agência Sicredi Centro de Gravataí, Roberta Cornely. “Há uma demanda significativa de empresários nos procurando com a expectativa de que surjam os recursos. Estamos apoiando os associados de todas as formas possíveis, tanto com linhas para organizar o fluxo de caixa como para quitação de outros créditos com juros maiores, por exemplo. Na agência, cada gerente tem feito, no mínimo, dez contatos por dia com associados para orientá-los”, relatou.
Ao longo da programação do Café com Negócios, os participantes enfatizaram que Gravataí, embora não tenha sofrido tantos casos de impacto direto das enchentes, enfrenta as consequências da catástrofe, sobretudo em âmbito econômico. “Nós tivemos empresas mais de 15 dias paradas porque seus fornecedores e clientes estavam em locais abaixo d’água. Muitos desses clientes ainda estão se recuperando, então a cadeia que isso gera mostra que Gravataí foi impactada indiretamente”, argumentou a gerente da Sicredi Gravataí Centro.

Segundo a presidente da Acigra, Graziella Isoppo, a proposta de trazer temas como os abordados hoje está atrelada ao fato de que a entidade se empenha em auxiliar empresariado e comunidade nesse processo de retomada dos negócios na cidade e estado. “O trabalho tem sido árduo, insistente nas tratativas junto ao Governo, pedindo por medidas que amparem o empresário do Estado do Rio Grande do Sul. Nós somos liberais, não temos por característica o assistencialismo, mas não se trata dessa pauta, trata-se de medidas necessárias para que possamos continuar trabalhando”, afirmou.
Cenário atual e projeções
O gerente de Expansão da Sicredi Origens RS iniciou a apresentação com dados da Cooperativa, que possui 28 agências físicas e uma móvel, mais de 121 mil associados e cerca de R$ 2 bilhões em carteira de crédito. Cristiano também trouxe dados para contextualizar o impacto da catástrofe climática no estado. Dos 469 municípios gaúchos afetados pelas enchentes, 139 foram severamente atingidos.
As regiões mais impactadas são as responsáveis por 55,3% do PIB do RS. “Isso nos dá a dimensão de quanto os danos da enchente ainda vão refletir por muitos anos na economia do estado. E o quanto precisamos estar organizados, atentos as medidas governamentais que impulsionarão a retomada dos negócios”, salientou o especialista em crédito.
Na explanação, Cristiano ressaltou que todos foram afetados de alguma maneira pelo evento climático, porém vão surgir oportunidades para recuperação dos negócios e será fundamental para as empresas agirem com estratégia na gestão. “Os setores são impactados de formas distintas, em virtude de suas atividades. Estimamos que indústria de transformação, comércio e serviços vão sofrer um impacto bastante significativo, o que vai refletir no PIB nesse primeiro momento pós-enchente. Mas os negócios, principalmente da construção civil, que estão diretamente ligados às atividades de retomada, tendem a crescer”, declarou.
Segundo o palestrante do Café com Negócios, frente ao atual cenário no estado e projeções de economistas do Sicredi, a estimativa é de 0,5% de crescimento do PIB em 2024. Sob uma avaliação “mais pessimista”, a tendência seria de -2,5%. Ele também mencionou uma pesquisa realizada pelo Sebrae que elenca as prioridades das empresas após o evento climático. De acordo com o estudo, as questões mais urgentes apontadas por empreendedores foram o acesso a crédito, postergação de impostos, renegociação de créditos, postergação de dívidas, gestão e operação, folha de pagamento, reposição de estoque, conserto ou aquisição de equipamentos, reformas estruturais e ajuda psicológica.

Linhas de crédito disponíveis
No Café com Negócios da Acigra, o gerente de Expansão da Sicredi Origens RS apresentou algumas opções de financiamento voltadas às empresas impactadas direta ou indiretamente pela maior catástrofe climática do estado. Contudo, o especialista em crédito alerta que as medidas emergenciais e condições anunciadas pelo Governo Federal têm sofrido frequentes alterações.
Associados e demais empresários interessados em saber mais sobre as linhas de crédito disponíveis na instituição financeira cooperativa, podem entrar em contato com as agências do Sicredi em Gravataí, Cachoeirinha, Porto Alegre, Canoas, Alvorada, Esteio, Glorinha, Sapucaia do Sul e Viamão.
Algumas opções:
– Crédito Solidário / FGI: Linha para capital de giro, com prazo de até 36 meses na taxa pré-fixada e 84 meses na pós-fixada. Voltada a empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões, situadas nos municípios gaúchos em situação de emergência ou calamidade. Limite por operação de até R$ 10 milhões.
– Fampe / Sebrae: Linha de crédito para capital de giro destinada ao Microempreendedor Individual (MEI), micro e pequenas empresas. Prazo máximo de 24 meses na taxa pré-fixada e até 36 meses na pós-fixada. Valores definidos conforme porte da empresa: até R$ 12,5 mil para MEI, R$ 75 mil para microempresário e R$ 125 mil para EPP.
– Microcrédito / PNMPO: Também para capital de giro, esta linha de crédito tem como prazo até 36 meses, sem carência. É voltada a Pessoas Físicas ou Jurídicas com renda anual de até R$ 360 mil. O limite por operação é de R$ 21 mil. Para contratar não se pode ter endividamento superior a R$ 80 mil (exceção para operações de crédito habitacional).
– Pronampe Solidário / FGO: Disponível para finalidade de capital de giro, esta linha de crédito tem prazo máximo de 72 meses. O público-alvo são MEI, ME e EPP (com até R$ 4,8 milhões de faturamento em 2023). Na concessão de recursos desse programa, foi determinado que municípios classificados em calamidade serão contemplados pelo Pronampe Solidário com Subvenção (rebate de 40% do valor tomado). Já as cidades em situação de emergência receberão o produto sem subvenção.
– Reconstrução RS (Programa BNDES Emergencial): Com recursos do Fundo Social de até R$ 15 bilhões, contemplará micro, pequenas e médias empresas com Renda Operacional Bruta (ROB) de até R$ 300 milhões. Para Pessoas Jurídicas com sede ou filial em municípios com classificação de calamidade pública no RS. Linha para capital de giro, projeto de investimento, aquisição de máquinas, equipamentos e caminhões.
Liberação de recursos
A presidente da Acigra defende a ideia de que é preciso um olhar coletivo para a situação no RS, além de respeito e valorização ao papel fundamental do empresariado para a reconstrução do estado. No bate-papo, foram citados exemplos de empresas, cuja matriz fica em Gravataí, porém operações tiveram prejuízos em outras cidades. Para ter acesso a alguns benefícios ou linhas de crédito, contudo, o CNPJ precisaria estar em município com classificação de estado de calamidade, o que não é o caso de Gravataí, declarada em situação de emergência. “O pedido é que as linhas de financiamento sejam pautadas, não na condição de calamidade, e sim, na reconstrução do Rio Grande do Sul”, reforçou.














