Uma transição de carreira nem sempre é fácil. Ainda mais se foram décadas dedicadas a mesma área de atuação. É preciso coragem, disposição e planejamento para fazer a mudança, determinação e foco para colocar as novas ideias em prática. Henrique Batista Gomes, morador do Parque dos Anjos, em Gravataí, sabe bem disso. Por mais de 30 anos, ele trabalhou no ramo da Comunicação, mas em 2019 viu a necessidade de mudar de profissão e passou a atuar como motorista de aplicativo da Uber.
Este ano, após meses de organização de um projeto para complementar a renda, Henrique lançou um sistema de divulgação de empresas no próprio veículo para que os passageiros assistam a breves vídeos publicitários durante a viagem. A criatividade do empreendedor não apenas surpreende os usuários do serviço como comerciantes de vários segmentos, que têm investido nesse formato de propaganda.
A trajetória do morador no mercado da Comunicação iniciou em 1986. Na época, ele viu o anúncio de uma vaga de vendedor no jornal Correio de Gravataí e, mesmo sem experiência na área comercial, decidiu se candidatar. A disposição que demonstrou em aprender o ofício lhe garantiu a oportunidade. Descobriu que tinha habilidade para o trabalho, em pouco tempo superou metas.
A medida em que se aperfeiçoava na profissão, pôde crescer na empresa e chegou a administrar um jornal do mesmo grupo com circulação semanal em Cachoeirinha. No ano 2000 adquiriu o veículo de comunicação. Como gestor, não só liderava o administrativo e financeiro como se dedicada a outras funções para garantir que a publicação chegasse aos leitores. Foi “um pouco” jornalista, diagramador e publicitário. Os veículos impressos foram perdendo espaço, todavia, para as mídias digitais e isso o levou a fechar o Jornal de Cachoeirinha em 2019.
“E agora, o que eu vou fazer? Trabalhar com o que?”, se perguntou Henrique. “Tive uma certa resistência em trabalhar como Uber, por questão de segurança, mas comecei e me adaptei”, afirma. Em cinco anos como motorista de aplicativo, ele também apostou em algumas ideias da namorada, Susana Paredes. Ela o auxiliou na preparação de doces para venda no carro e recentemente intermediou a negociação para revender bolachas de uma empresa da região.
Conforme Henrique, a iniciativa de vender produtos no veículo surgiu na pandemia de Covid-19. O empreendedor recorda que, devido a algumas restrições, não era possível transportar passageiros no banco da frente, mas algumas pessoas demonstravam insatisfação com isso. Passou a colocar os itens no banco e, assim, os passageiros não insistiam em sentar na frente.
Há cerca de dois anos, o motorista de aplicativo começou a pensar numa estratégia para aumentar os rendimentos que utilizasse a comunicação, pois sua experiência como administrador de jornal possibilitou que fizesse muitas conexões comerciais em Cachoeirinha e Gravataí, cidades nas quais também realiza a maior parte das viagens. “Em janeiro deste ano decidi colocar em prática e comprei o tablet. Por causa do tempo com o jornal, já tinha alguns contatos. Então comecei a procurar esses clientes”, relata.
Na circulação pelas ruas, Henrique via alguns estabelecimentos e anotava os telefones. Posteriormente, fazia o contato para oferecer o serviço. Hoje, já recebe uma grande procura espontânea de clientes, que acharam o modelo de negócio inovador e eficiente. “A receptividade do comerciante foi muito boa, por ser uma coisa nova, diferente”, revela o empreendedor, que teve a loja Timm Doces como primeiro cliente nessa nova empreitada.
Cada vídeo exibido no tablet acoplado no banco direito tem duração de 20 segundos, sendo o material fornecido pelo próprio contratante. São firmados contratos mensais, que podem ser renovados pelo tempo que a empresa desejar. Atualmente, a lista de clientes inclui diversos segmentos, tais como saúde, ramo imobiliário, produtos artesanais, estabelecimentos comerciais. O motorista realiza cerca de 700 viagens por mês, atendendo em torno de 1 mil pessoas.
Apoiado pela namorada e também pelos filhos – Bruno, Breno, Júlia e Caio – Henrique quer ampliar o novo negócio. “Eu não acredito que inventei a roda, mas tem dado certo e estudo possibilidades para expandir”, frisa.
Fotos: Priscila Milán/Giro de Gravataí

















