Quantas vezes você já passou pelo Centro de Gravataí sem imaginar que estava caminhando por uma história que começou há tanto tempo? Talvez você tenha passado pela praça, pela igreja, por uma rua antiga ou por um prédio que faz parte da paisagem há décadas sem nunca se perguntar o que aconteceu ali antes de nós. Eu mesma, que cresci e vivo em Gravataí, comecei a pensar nisso de uma maneira diferente.
Talvez esse seja o problema de morar em uma cidade: a gente se acostuma tanto com ela que deixa de enxergá-la. Gravataí não costuma aparecer nas listas de destinos turísticos do Rio Grande do Sul. Não temos aquela imagem de cidade que faz as pessoas planejarem uma viagem de fim de semana só para conhecê-la. E, sendo sincera, talvez a cidade ainda tenha muito a descobrir, valorizar e cuidar quando falamos em turismo, cultura e patrimônio.
Mas dizer que Gravataí não tem história seria uma grande injustiça. Antes dos carros, das grandes avenidas, dos bairros que conhecemos hoje e do movimento industrial que transformou a região, existia a Aldeia dos Anjos.
A região passou por transformações importantes, recebeu diferentes populações e se tornou um ponto de circulação entre a capital e outras regiões. E tem algo nessa história que me chama especialmente a atenção. Gravataí já teve no rio uma de suas grandes forças.

A produção de farinha de mandioca teve importância na economia local, chegando a ser comercializada para outras regiões. O Rio Gravataí e os caminhos que passavam pelo município ajudavam a movimentar pessoas e mercadorias. É curioso pensar nisso enquanto atravessamos a cidade hoje. O que para nós pode ser apenas uma rua, uma praça ou um trecho do rio já foi cenário da vida de pessoas que construíram suas famílias, trabalharam, comercializaram seus produtos e ajudaram a formar aquilo que hoje chamamos de Gravataí.
E algumas dessas marcas ainda estão por aqui. O antigo prédio da Prefeitura, hoje ligado à Casa de Cultura, foi durante quase 130 anos um dos centros do poder municipal. O Museu Municipal Agostinho Martha, em processo de restauro, funciona em um prédio histórico e guarda parte da memória da cidade. A Igreja Matriz Nossa Senhora dos Anjos também carrega história e manifestações culturais ligadas à formação do município. Tem ainda o Morro Itacolomi, um dos grandes símbolos naturais de Gravataí. Além de fazer parte da paisagem, o morro é reconhecido como área de importância ambiental e aparece no próprio brasão do município.
Então talvez a pergunta não seja: “O que Gravataí tem de turístico?”
Talvez a pergunta certa seja: “Por que a gente ainda olha tão pouco para aquilo que Gravataí tem?”
Turismo não precisa começar com grandes hotéis, parques gigantes ou monumentos famosos. Pode começar com uma história bem contada. Pode começar quando alguém decide caminhar pelo Centro e conhecer a história de um prédio antigo. Quando uma família leva uma criança para conhecer um lugar que faz parte da formação da cidade. Quando alguém fotografa uma paisagem que sempre esteve ali, mas que nunca tinha parado para observar.
Pode começar quando nós, moradores, deixamos de olhar para nossa cidade apenas como o lugar onde moramos e começamos a enxergá-la também como um lugar que merece ser descoberto. Talvez Gravataí precise recuperar um pouco dessa curiosidade. Precisamos conhecer as histórias que vieram antes de nós para entender melhor as que estamos construindo agora. Porque uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas e números.
É feita de memória.
De pessoas.
De sotaques.
De festas.
De histórias de família.
De lugares que resistiram ao tempo.
E também daqueles lugares que quase desapareceram da nossa lembrança.
Gravataí mudou muito. E vai continuar mudando. Mas o progresso de uma cidade não precisa significar esquecer aquilo que veio antes. Pelo contrário. Uma cidade que conhece a própria história sabe melhor para onde quer ir.
Neste aniversário de Gravataí, minha vontade não é fazer uma lista de motivos para dizer que a cidade é perfeita. Ela não é. É lembrar que existe algo muito mais importante do que ter uma cidade cheia de pontos turísticos: ter uma cidade que reconhece o valor daquilo que possui.
E nós temos história.
Temos natureza.
Temos cultura.
Temos memória.
Temos pessoas que há décadas trabalham para preservar tudo isso. Talvez ainda falte transformar tudo isso em uma experiência que faça as pessoas quererem conhecer Gravataí.
Mas essa transformação também começa em nós. Começa quando paramos de dizer que aqui “não tem nada” e passamos a perguntar: “O que existe aqui que eu ainda não conheço?”
Talvez a nossa cidade não precise se tornar outra para ser interessante. Talvez nós só precisemos aprender a olhar para Gravataí com olhos de quem acabou de chegar. E, quem sabe, descobrir que a cidade que parecia não ter nada para contar estava, há muito tempo, esperando alguém parar para escutar.
*Brendha Krzekotoski é empresária e influenciadora digital nas áreas de turismo e aventuras. Proprietária da agência de viagens Orivida Travel, une a experiência no turismo ao gosto por aventuras, descobertas e pelo mundo outdoor. É apaixonada por viagens, natureza e novas experiências e compartilha nas redes sociais suas vivências em destinos, trilhas e trekkings pelo país.













