Sabe quando um assunto é muito sério? Quando o colégio Dom Feliciano libera seus alunos, deve ser um motivo de interesse nacional. Ao fundo, o som das sirenes e dos estampidos dos foguetes, o colégio se transformava em um verdadeiro frenesi. Os alunos gritavam pelos corredores:
-Ele está chegando?

As ruas do centro da cidade estavam completamente lotadas e as lojas decoradas de verde amarelo. Gravataí parou!

Nós alunos da turma da 6ª série saímos para a avenida José Loureiro da Silva em direção à praça em Borges de Medeiros; ficamos exatamente escorados no Chevette do ex-prefeito José Motta, que emoldurava a frente do paço municipal.
Minha turma cantava:
-É campeão! Paulão, Paulão!
O filho de Gravataí retornou triunfante das Olimpíadas de Barcelona, no dia 10 de agosto de 1992 trouxe nossa primeira medalha de ouro de um esporte coletivo para o Brasil.
Paulo André Jukoski, o Ganso para alguns, estampava um sorriso de ponta a ponta do rosto e se esforçava ao máximo para acenar e mandar oi para todos os seus conhecidos, mostrando orgulhosamente aquele objeto de desejo dourado, até hoje o Paulão acha que a medalha de ouro é dele, quanto engano, tenho provas irrefutáveis que nós, os Gravataienses somos também proprietários desse ouro.
No começo, tanto no Colégio Dom Feliciano ou na Escola Adelaide Linck, o Polivalente, com o Prof. Julião e até no Colégio Nossa Senhora do Anjos (Gensa) as aulas de educação física foram determinantes na construção da educação esportiva, nas palavras dele, Paulão; a semente olímpica foi plantada nas escolas pelos diversos educadores. Assim como Paulão, minha primeira referência esportiva e educativa foi um professor de Educação Física, o Antônio Carlos (Pimenta), lembro-me que cheguei a ter aulas de Ed. Física em que ainda havia a separação entre meninos e meninas. Em 1992 fomos campeões da antiga 6º série quando a loucura do vôlei chegou ao seu auge na cidade.
“Tenho bem presente na minha memória, o momento da chegada deste grande homem, já cansado da viagem bem na esquina do colégio Dom Feliciano, eu confesso que fiquei feliz, pela atitude humilde de me reconhecer naquele turbilhão de pessoas, a partir de 1992 o vôlei ganhou outra dimensão no colégio”. Antônio Carlos – Professor de Ed. Física.


A saudosa educadora Dona Wilma Camargo, diretora do GENSA de 1961 até 1985, foi a organizadora junto com a prefeitura na logística da chegada do nosso atleta, contato com os Bombeiros, organização do pequeno tablado, bandeiras do Brasil, a banda do Dom Feliciano tocando o Hino Nacional e as ruas espontaneamente lotadas. Vale lembrar que em 92 não havia celular, redes sociais e muito menos internet para facilitar a divulgação.
A visionária Dona Vilma no ano de 1979 foi à Porto Alegre na escola Presidente Kennedy e solicitou para Diretora Dona Eva um certo professor Paulinho, para desenvolver um projeto de incentivo ao vôlei na Escola Nossa Senhora dos Anjos (Gensa).
“Não poderia negar um favor à Dona Eva, vim para Gravataí apenas para dar algumas horas de aulas, não tínhamos ginásio, as redes eram precárias, apenas 2 bolas de vôlei, vinha no sábado para complementar as aulas, foi um baita desafio desenvolver as seleções do vôlei do Gensa”. Paulo Matias- Professor Ed. Física
Depois de 6 meses de treinos no Gensa o destino colocou frente a frente o Professor Paulo e o aluno Paulo;
– Hey … psiu quer jogar vôlei, estou precisando de um cara alto! Falou o Matias.
Aquele convite valeu ouro. Paulão foi atuar como reserva do Zeno em um campeonato e acabou substituindo um dos titulares que se machucou, nascia ali a paixão pelo vôlei.
“O Matias foi o meu grande técnico, com 14 anos ele me tirava da sala de aula para treinar, sempre me incentivou, me ensinou muita coisa, meu grande mentor”– Paulo Jukoski-Medalhista de Ouro nos Jogos Olímpicos em Barcelona
Encontramos nos grupos de Facebook e nas memórias dos esportistas Gravataienses, histórias do vôlei da nossa cidade dos anos 50,60 e 70, mas há uma unanimidade entre os amantes deste esporte, depois da chegada do Professor Matias, no começo dos anos 1980 o vôlei mudou de patamar na cidade.
“O Prof. Matias foi um entusiasta em tudo o que ele fazia. Ele reconhecia de longe o talento. Eu mesma, desenvolvi essa paixão pelo esporte, por que adquiri a disciplina e espírito competitivo participando do time da escola (Gensa) e dos treinos na escola Toque Certo.”- Luciane Conceição- Primeira aluna inscrita na Toque Certo
O Matias sempre foi um atleta completo, jogava handebol, praticava atletismo e chegou a participar da equipe de remo do Grêmio Futebol Porto-alegrense. O vôlei tornou-se coisa muito séria, lá por 1972 na escola Instituto Dom Diogo de Souza, o professor obcecado pelo esporte, assistia os treinos da Sogipa e no IPA com o professor Justino, que dava dicas importantes. O Matias aqui em Gravataí treinava os meninos e as meninas, lotava o Ginásio do Aldeião nos torneios de domingo à tarde e criou a escolinha de vôlei Toque Certo.
“Jorge Sanco, Roberto Rossi, Ricardo Andreoli, Salvador, Sasso, Gustavo Gilson, Francisco, Jader e Sérgio, me lembro dessa seleção municipal, o vôlei ganhou muito com a construção do Ginásio, antes jogávamos em qualquer lugar, domingo era lindo de ver as Aldeião lotado”. Ricardo Andrioli- Ex-jogador da Seleção Gaúcha.

Poucas pessoas sabem dessa história de bastidor, o seu Antônio da Esquina das Novidades, pai do amigo Adriano, chegou esbaforido de caminhãozinho na frente da casa do Paulão, avisando que um tal de Bebeto havia ligado para ele na madeireira; detalhe, o jogador que não possuía telefone em casa, pois o mesmo era artigo de luxo. Foi então que correu até o centro de Gravataí para retornar à ligação.
“-Alô Grande!? (Apelido do Jogador). Como é difícil de te achar, peguei a lista telefônica e liguei para primeira madeireira da lista e os caras te conheciam, consegui uma vaga pra ti no time de Chapecó, te apresenta amanhã lá, ok?” Bebeto de Freitas – Ex-técnico da Seleção Brasileira.
Paulão afirma que essa ligação inusitada do Técnico Bebeto de Freitas mudou o seu destino e foi definitiva para o início da sua carreira profissional em Chapecó. A partir daí se destacou nacionalmente até chegar à seleção brasileira, toda vez que o campeão conta essa história embarga a voz e mareja os olhos.

A chegada em Gravataí foi apoteótica, lá pela parada 68 o trânsito parou por completo e quando o caminhão dos bombeiros fez a curva da esquina Dorival C. L. de Oliveira com a Av. José Loureiro da Silva cheia de gente, o campeão avistava pelas calçadas abanando freneticamente os amigos, colegas, pessoas conhecidas, mas o mais emotivo foi quando a sua mãe repetia a frase:
“–É pra ti meu filho, é pra ti!
Na frente da prefeitura municipal estavam lá o Prefeito José Motta, o povo e muitas escolas públicas e particulares da cidade, formando uma multidão estimada pela Brigada em 30.000 pessoas, num empurra-empurra coordenado pela amiga e Professora de Ed. Física Marsala Constante, que se fez mestra de cerimônias, ao tentar controlar o incontrolável, dizendo ao microfone:
“– O filho de Gravataí, voltou! Voltou!” Ao mesmo tempo ela (Marsala) tinha de controlar as emoções pelo amigo e companheiro de jogos, que regressava para os braços do povo.

“Quando retornou à Gravataí como campeão olímpico, foi recebido com uma grande homenagem no ginásio de esportes lotado, palco de muitas competições escolares nas quais ele brilhou.” Eunice Ohlweiler Oliveira-Ex-diretora do Gensa
Ao falar com as pessoas do vôlei aqui de Gravataí, como Ricardo Andreolli, ex-jogador da seleção gaúcha, a Marsala Constante amiga e heptacampeã municipal, ou do Professor Matias, Taís Donga (Nega) e do Prof. Antônio Carlos, percebi um entusiasmo fora do comum nas memórias compartilhadas, mesmo que algumas histórias do vôlei estejam resumidas apenas em nomes ou em apenas uma frase aqui no texto. Dialoguei com algumas pessoas por horas, recebendo dezenas de mensagens de WhatsApp, muitos me diziam:
“-Amon tu estás me fazendo lembrar e estamos vivendo a emoção de novo!”
Esse medalha é também obra do seu Gilton Lessa Gomes que foi o primeiro treinador de vôlei do Gensa lá em 1960, o ouro também pertence aos amigos das turmas do colégio como Régis Albino, Paulo Mozart, Vado e Jair, a medalha é um pouco da Dona Wilma, o ouro é do Matias e sua persistência, com certeza essa vitória é dos grandes times de vôlei do Alvi-Rubro, Cerâmica, Dom Feliciano, CEEE, Paladino, Centro de Artes, Icotron, Pirelli, Gensa, Mutuka, Aldepa, Josefina Becker, Santa Rita de Cássia e Tuiuti.
A medalha de ouro dos jogos olímpicos de Barcelona tem participação do Doli Munhoz ex-presidente do Cerâmica, pai da Zina Gomes Lima, é ouro para Luciano Karwatzki, Marilene Terezinha Jeager, Sônia Costa, Maria Helena Marques Martins, Maria Luiza Pastro Pereira, Maria da Graça Dutra, André Munhoz, Mano Japur, Paulo Scolari, Cezar Pacheco, João Dário Pacheco, José Henrique Assis de Sá, Carlão, Marquinhos, Mingo, Pipoca, Marcia Peixoto, Zeli Loff, Rúbia Capretti, Zaira Souza, Adolfo Valduga, Rubens Chiavaro, Darci Ramos, Maria Helena Denicol, Rosa Noronha, Solange Vargas, Fabiano Ventura, Arabela Cardoso, Luisa Coelho, Simone Takarashi, Cris Soares, Aline Fofonka, Beatriz Rost, Márcia Fofonka, Adriane Ozório Astiazara, Adriana Fernandes, Neiva Pereira Costa, Maria Elena Salazar, João Salvador Barbosa dos Santos, Adriano Ortiz Corrêa, Rosa Valls, Sérgio Silva, Luis Eduardo Paluga, Vitor Rodrigues, Jussara Warth, Angelis Castilhos, Angela Vargas, Sônia Sarmento, Rosi Godoy, Alberto Dantas, Mônica Paludo, Milene Paludo, Marcio Adriano Patrocin Sperb, , Vera Lúcia Fonseca, Patela, Ursula Jaeger, Marlova Jaeger, Nice, Lucia Donga, Marílda Fonseca, Glória, Clarissa, Toni Gish, Volmir Excel, Mara Pulgatti, Zezé, Dudu, Banha, Jaime Rosa, Gilson Nunes, Paula J. Martins, Rogério Terada, Bernadete Ussan, Jorge Sanco, Cláudio Salgado, Walter Hoeveler, Professor Celso, Cláudio Wurlitzer, seu Paulinho, Dona Marlene, Rafael, Renata, Adriana Jukoski e muitos tantos que de forma direta ou indireta contribuíram para fortalecimento do esporte até chegarmos na vitória coletiva do Paulo André Jukosk.
Como é impossível dividir a medalha em centenas de merecidos pedacinhos para seus conquistadores e vale lembrar que o vôlei é um esporte coletivo, aceitamos que o Paulão Jukoski siga sendo o guardião do ouro de todos os Gravataienses. A medalha é o somatório de toda nossa história, mas também é o ponto máximo do talento do Paulão, das horas dedicadas aos treinos, nos momentos longe da família, dos amigos e, principalmente do merecido suor sagrado dos campeões.













