Trocar a segurança de empregos estáveis, uma casa estruturada e a previsibilidade da rotina por uma mochila de apenas 10 quilos pode soar como um salto arriscado, ou até imprudente. Mas foi exatamente essa escolha que marcou a virada na vida de Douglas Carivali e Thaís Ávila, um casal gravataiense que decidiu transformar o desejo de conhecer o mundo em projeto de vida.
Juntos há quase cinco anos e noivos há dois, eles deram o primeiro passo rumo à mudança durante uma viagem à Europa, experiência que ampliou horizontes e despertou uma inquietação: viver mais, explorar mais e se libertar das limitações geográficas impostas pelo trabalho presencial.
A decisão de partir não foi impulsiva. Douglas atuava como advogado em um escritório familiar, enquanto Thaís era estagiária de pós-graduação no fórum da cidade quando o casal resolveu mergulhar em pesquisas, consumindo conteúdos diários sobre destinos, culturas e formas alternativas de viajar. Entre possibilidades e roteiros, a Ásia surgiu como escolha natural, não apenas pelo custo mais acessível para brasileiros, mas pela riqueza cultural e diversidade de países.
Em janeiro de 2025, surgiu a oportunidade que faltava: passagens com preço acessível para a Europa, que serviriam como conexão até a Tailândia, porta de entrada para o continente asiático. A partir daí, não houve mais volta. O casal economizou, vendeu bens (incluindo móveis e carro) e, em outubro do mesmo ano, embarcou com passagens apenas de ida.

Segundo Douglas, “diferente do que muitos imaginam, a jornada não é um ano sabático”. Ele segue trabalhando remotamente, migrando da advocacia tradicional para o marketing digital, com foco em tráfego pago. Thaís também se reinventou profissionalmente e hoje atua com design e edição de vídeos para redes sociais. A liberdade geográfica, antes um desejo distante, tornou-se realidade, ainda que acompanhada de desafios.
Durante a viagem, estratégias para reduzir custos se tornaram essenciais. Uma delas foi o pet sitting, prática em que viajantes cuidam de casas e animais de estimação enquanto os donos estão fora. Foi assim que conseguiram passar nove dias em Singapura, um dos destinos mais caros do mundo, sem gastos com hospedagem e com economia significativa na alimentação.
Mas a experiência vai além dos cenários paradisíacos frequentemente exibidos nas redes sociais. A adaptação constante é um dos principais obstáculos: viver em um lugar diferente a cada semana exige resiliência, organização e capacidade de lidar com o desconhecido. Questões burocráticas, como vistos e regras de entrada em cada país, fazem parte da rotina, assim como o planejamento contínuo dos próximos passos.

O impacto emocional também é significativo. A diferença de fuso horário, que chega a 10 horas, intensifica a saudade da família, dos amigos e até de elementos simples do cotidiano brasileiro, como a comida caseira. Ainda assim, o casal afirma que os aprendizados superam as dificuldades.
Ao longo da jornada, Douglas e Thaís perceberam mudanças profundas na forma de enxergar a vida. O consumo material perdeu espaço para experiências, e as prioridades foram redefinidas. “É transformador e cansativo ao mesmo tempo”, resumem.
Além das vivências culturais e históricas de cada país, as conexões humanas se tornaram parte essencial da experiência. Amizades construídas pelo caminho e trocas com pessoas de diferentes origens ampliaram ainda mais a perspectiva do casal sobre o mundo.
Conscientes de que sua escolha também reflete um privilégio, especialmente diante das desigualdades no Brasil, eles decidiram compartilhar a jornada nas redes sociais. No Instagram e no YouTube, por meio do perfil @_memoriasnamala, mostram os bastidores da vida nômade, com dicas de economia, relatos de perrengues e descobertas culturais.
Mais do que relatar uma viagem, Douglas e Thaís buscam provocar reflexão. Para eles, seguir um caminho fora do padrão não significa fugir da realidade, mas construir uma vida alinhada aos próprios valores. E deixam um recado para quem sonha em fazer o mesmo: “o momento perfeito raramente chega, mas começar pode mudar tudo”.





*Fotos: Arquivo Pessoal/ Douglas e Thais.















