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Home Variedades

Especial Santa Tecla | Vida em comunidade

Priscila Milán por Priscila Milán
3 de março de 2023
em Variedades
Especial Santa Tecla | Vida em comunidade

Na festa em honra à Santa Tecla, é realizada uma procissão após a missa. Foto: Graziele Almeida


Na festa em honra à Santa Tecla, é realizada uma procissão após a missa. Foto: Graziele Almeida

A série de reportagens sobre o distrito apresenta, nesta sexta-feira (3/3), histórias que mostram o engajamento social e a contribuição cultural de famílias da região.

A história de uma comunidade é construída por muitas mãos. A união formou o caminho até aqui. É o que relatam moradores da Santa Tecla ao compartilharem com o Giro de Gravataí lembranças familiares, de convívio social e registros históricos deste distrito, que preserva com orgulho a ancestralidade. São muitos os exemplos de quem doou tempo e dedicação para ajudar outras pessoas, fazer a região crescer e valorizar as tradições. Hoje, a série especial resgata algumas histórias sobre estes aspectos, destacando, especialmente, ações desenvolvidas em prol da população local e festividades típicas.

Quando o assunto é participação ativa na comunidade, impossível não mencionar a contribuição de membros de famílias como Bitelo, Bayer, Pacheco e Rosa. Das primeiras gerações, formadoras da Santa Tecla, até os dias atuais, muitos deles tiveram papel de destaque neste contexto.

Os Bitelo e a valorização às origens

Embora não haja registro que confirme exatamente quando os primeiros integrantes da Família Bitelo vieram para essa parte do Vale do Gravataí, sabe-se que alguns deles estiveram no início do povoamento. Conforme o historiador Nelson Bitelo, morador local, por muitas gerações, os familiares residentes nessa região se dedicaram, principalmente, a atividades ligadas à agricultura, fabricação de aguardente e farinha de mandioca. Contudo, o envolvimento em trabalhos comunitários também esteve muito presente.

Entre tantos nomes conhecidos do passado da localidade, cabe referir Ozório de Oliveira Bitelo, nascido em 29 de setembro de 1898. Ele trabalhou com a produção de aguardente e farinha de mandioca, que eram as bases da economia do município, na época. Casado com Elvira Petry, teve ainda papel importante na construção da Igreja Católica de Santa Tecla, compondo, em 1929, a comissão à frente da obra, ao lado de Lino Schuch e Artur Muller.

As histórias da Capela de Santa Tecla (foto) e da Igreja Protestante serão contadas na próxima reportagem. Foto: Sérgio Kaercher

Ozório fez parte da famosa banda de Marcos Wulff, embora admitisse, com bom humor, que não era muito habilidoso como músico. Foi subdelegado na Costa do Ipiranga e teve como uma das principais atribuições a missão de contratar as equipes de colonos para abrir estradas na região. O historiador explica que um acordo era firmado com a Prefeitura para que o trabalho fosse executado em troca da isenção de impostos. Trechos de importantes vias foram abertos nos anos 40, caso das estradas hoje denominadas Henrique Closs (com ligação à Lomba Grande, em Novo Hamburgo) e Marechal Rondon (liga Santa Tecla à Vista Alegre, em Cachoeirinha).

Ozório faleceu em junho de 1980, deixando dois filhos, Nelmo, que se mudou para Porto Alegre, e Nelson (pai do historiador e mais conhecido como Nelinho), que permaneceu em Gravataí e também participou ativamente dos projetos da comunidade. Nelinho nasceu em 1923 e foi muito ligado à igreja. Foi coroinha por muitos anos e também zelador do Cemitério Santa Tecla, até a municipalização do local, na década de 80. Bem antes disso, todavia, abriu a primeira oficina para fabricação e conserto de rádios na região. Por cerca de 30 anos, produziu rádios de galena, que eram modelos que não precisavam de fonte de energia, apenas das próprias ondas recebidas da antena que fornecia o sinal.

Seu Nelinho, falecido em 1995, foi casado com Eva Dihl, outra figura popular no lugar. A professora Eva começou a lecionar aos 15 anos, na Escola Emília Viegas da Rocha, vindo depois para a instituição de ensino situada na Santa Tecla. “Ela fundou duas escolas, a Humberto de Campos e a Manuel Francisco de Lisboa (extinta)”, revela Nelson, comentando que a mãe, ao vir trabalhar no bairro, foi acolhida na residência dos Muller.

Professora Eva e Nelinho se dedicaram a vários trabalhos na comunidade. Imagem: Reprodução

Eva também foi catequista e costureira de mão cheia. Realizava com esmero o trabalho de preparação de noivas, da confecção do vestido ao bolo de casamento. O casal teve três filhos, Maurício, Nelson e Josué. A professora faleceu há três anos.

Da geração dos filhos de Eva e Nelinho para cá, a Família Bitelo também ganhou popularidade por seu envolvimento em grandes eventos culturais, sobretudo na programação do CTG Estância do Gravatá, que inclui a tradicional Pousada dos Carreteiros e a Festa do Porco.

Pousada dos Carreteiros, realizada anualmente em maio, é um resgate à cultura da vida no campo. Foto: Divulgação

Fundação do CTG

A história do CTG Estância do Gravatá começou bem antes de sua fundação oficial, em 15 de setembro de 1992. O atual patrão da entidade tradicionalista, Maurício Bitelo, descreve que tudo iniciou com um piquete, no final dos anos 80. “Um grupo de jovens se reunia, todas as quintas à noite, para fazer um churrasco e conversar no galpão da Dinorá e do Adriano Bitelo”, recorda.

Ele presidia o piquete, do qual também faziam parte os amigos Amarelo, Adriano, Neni, Mano, Dinho, Toca, Marreca, Pingo e os senhores Bruno Wulff e Silvio Líbano. “Fomos procurados por João Rosa, Darci Kuhsler, Irio Bitelo e mais alguns moradores para criarmos um CTG”, diz, acrescentando que o galpão foi inaugurado em 1996, em uma área cedida por João Rosa.

Darci Kuhsler foi o primeiro patrão do Estância do Gravatá. Ficou no cargo por uma década. Posteriormente, estiveram à frente da patronagem Maurício Bitelo, Júlio Closs e Patrícia Bitelo. Atualmente, Maurício recebe o apoio do vice, Juvenal Almeida, e demais membros que colaboram para a promoção de duas grandes atividades, a Pousada dos Carreteiros, que chegará à 21ª edição este ano, nos dias 6 e 7 de maio, e a Festa do Porco, tradicionalmente promovida em setembro. O espaço também é disponibilizado para ações da comunidade.

Registro da inauguração do Estância do Gravatá. Foto: Reprodução

Amor às tradições gaúchas

Ao falar de recordações no CTG, a terapeuta Cimône Bayer se emociona. E não é para menos! Ela foi 1ª Prenda do Estância do Gravatá por mais de dez anos, fez muitas amizades, compartilhou com várias crianças tudo o que aprendeu sobre tradicionalismo, tem sua história de vida muito ligada ao amor pelas tradições gaúchas.

É com carinho que Cimône guarda fotografias, faixas conquistadas em rodeios e 32 vestidos de prenda. “Sem falar os que doei para outras prendas, que não tinham condições”, comenta. Entre tantas lembranças e peças preservadas para não deixar a história da entidade tradicionalista se perder, também é especial o documento datilografado e a ela entregue por Paulo Closs, responsável por criar o hino do CTG. “Estância que lembra os nossos ancestrais, lembranças dos nossos lindos gravatás, querência de amor e tradição do laço que amarra o coração […]”, ressalta o trecho inicial da homenagem.

Ermindo Bayer e a neta, Cimône. Foto: Reprodução

Outro motivo de orgulho e emoção para Cimône é o histórico familiar. É ela que compartilhou com o Giro de Gravataí grande parte das informações sobre os Bayer e os Schuch, cujas histórias se cruzaram na formação da Santa Tecla.

Uma grande família

Lino Miguel Schuch, citado na reportagem anterior da série, deixou a Alemanha ainda criança. Veio para o Brasil com os pais, em um navio cargueiro. Eles fugiam da Guerra Franco-Prussiana, em 1870. Maria Paulina, que viria a conhecer em sua nova terra e casar, teve trajetória parecida, porém ela nasceu em um navio e foi registrada na chegada ao Brasil. A família dele se instalou em Lomba Grande. A dela foi para Minas do Carvão. Segundo a bisneta Cimône Bayer, não se sabe exatamente onde e como se conheceram, mas após o casamento eles vieram para Santa Tecla.

Pintura retrata o casal Lino e Maria Paulina Schuch. Imagem: Reprodução
Zildo Schuch (um dos filhos de Lino) com a esposa, Enilda Bitelo. Imagem: Reprodução

Dos 13 filhos que Lino e Maria Paulina tiveram, apenas a caçula, Cecília, é viva e reside em Tramandaí. Contudo, outros descendentes seguem em Gravataí. Das narrativas apresentadas às gerações seguintes, a terapeuta pôde descobrir curiosidades sobre o bisavô materno, que foi uma figura importante na região. Lino Schuch, por exemplo, era quem confeccionava os caixões na época em que ainda não se dispunha de funerárias na localidade. Com seu talento para a carpintaria, produzia caixões decorados, pintava-os e forrava com tecido. Foi ele também o proprietário do primeiro veículo a circular nas redondezas. De acordo com a bisneta, os relatos são de que o automóvel era um modelo com ferro e madeira e suas peças eram consertadas por ele mesmo.

Por parte da família do pai, os Bayer, Cimône destaca que há poucas informações sobre os primeiros residentes na cidade. Sabe-se, todavia, diversas histórias relacionadas à casa que até hoje pertence a eles. Registros na Prefeitura apontam que o imóvel foi construído em 1906. O tataravô dela, Guilherme Bayer, iniciou a construção, ampliada em 1920 pelo filho Theobaldo.

Casa dos Bayer foi armazém, escola e salão de bailes. Foto: Giro de Gravataí/Especial

Por intermédio de Theobaldo Bayer é que a residência, que já tinha abrigado um armazém, foi sede do grupo escolar Joaquim de Santa Úrsula e aos finais de semana funcionava como salão de bailes de Kerb. O primeiro da região, aliás.

As festas aconteceram no local até 1965. “Meu avô Ermindo deu continuidade. Meu pai, Erni Paulo Bayer, conta que ele aprendeu a dançar ali e os bailes terminaram quando tinha 13 anos”, frisa a gravataiense. Para os encontros, a comunidade tirava as classes, mas limpava e deixava tudo organizado no domingo para as aulas no dia seguinte.

Theobaldo Bayer foi quem começou a realização de bailes no imóvel da família. Imagem: Reprodução

Para quem se perguntar “como seriam os bailes nessa época?”, Seu Erni revela o que sabe: havia pouca iluminação, eram utilizados lampiões de carbureto; a música era comandada pelos próprios moradores; e o mais curioso era que, para manter a cerveja gelada, as bebidas ficavam na água durante a semana e no dia de evento eram colocadas em um buraco com serragem, no porão.

Cimône salienta que três gerações dos Bayer chegaram a estudar na escola que funcionou no imóvel por cerca de cinco décadas. Os mais novos já tiveram acesso à Escola Santa Tecla. A mãe dela, Ceni Terezinha Bayer, e a avó Nilza foram merendeiras na instituição. Há 18 anos, a família administra uma lancheria voltada aos praticantes de mototrilha e mountain bike na região.

Ações que mobilizam os moradores

Em conversa com moradores desse distrito gravataiense, a equipe de reportagem apurou que alguns eventos mobilizam a comunidade. Muita gente se une por um propósito comum. Este é o caso da Festa de Santa Tecla e do Pró-Natal. As duas atividades ajudam a fortalecer o vínculo entre as famílias e exaltam a cultura local.

Fotografia de uma edição antiga da festa da Igreja Católica. Imagem: Reprodução

A próxima edição da Festa de Santa Tecla acontece no dia 12 de março, na Estrada Henrique Closs, 6.675, onde fica a capela. A programação vai incluir missa às 11h, com o padre Gilberto Pacheco, procissão, almoço, domingueira a partir das 14h e brincadeiras para a garotada. O local contará com estacionamento.

Segundo o presidente da Comunidade Católica de Santa Tecla, Luis Cristóvão Rosa, o cardápio do almoço será composto por churrasco, galeto, salsichão, porco, galinhada, aipim, saladas e maionese. Todos os pratos são tradicionais na localidade, assim como os doces que serão oferecidos: sagu, pudim, panelinha e cuca. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos antecipadamente pelo telefone 99985-1045. Menores de 10 anos não pagam. A música ficará por conta da bandinha típica alemã Imigrante, de Sapiranga, e do Musical Explosão.

Evento do dia 12 de março contará com uma bandinha típica alemã. Foto: Divulgação

A festividade, suspensa durante um período, porém retomada em 2019, reúne grande público, inclusive moradores de outras cidades. “Acredito que a ligação da comunidade com a Festa de Santa Tecla se deve muito a nostalgia que as pessoas sentem ao reviver suas lembranças de infância e juventude. Converso com muitas pessoas durante as festas e elas vem, às vezes, de cidades vizinhas exclusivamente para participar do evento. Em sua maioria, esses visitantes são descendentes de famílias ancestrais da Santa Tecla que se identificam com as características do evento, trazendo à tona memórias afetivas de seus entes queridos”, explica Luis.

Outro projeto que retrata o engajamento dos munícipes da região é o Natal Luz de Santa Tecla, como também é chamada a iniciativa Pró-Natal. O fundador e um dos coordenadores do grupo voluntário responsável pelo evento é Marco Antonio Pacheco Rosa, que guarda muitas fotografias das edições realizadas. Ele ressalta que a ideia de desenvolver uma ação social no período natalino surgiu em 2007.

“Um grupo de amigos estava tomando chimarrão e olhando para a pracinha em frente ao antigo bar do senhor Bruno Wulff. A gente conversou que poderia enfeitar o local para o Natal”, lembra Marco Antonio. Cada um fez sua contribuição, compraram luzes e no dia que foram acendê-las foram surpreendidos por moradores que se concentraram no local para assistir ao acendimento. “O pessoal começou a chegar com cadeiras. Tinha aproximadamente 100 pessoas esperando que as luzes fossem acesas. Ficamos felizes com aquele momento, que não esperávamos. No outro dia, falando sobre o acontecido, resolvemos montar um grupo para o Natal seguinte”, destaca.

A partir de 2008, a mobilização para arrecadar recursos para as atividades ocorreu ao longo do ano, com eventos. “No primeiro ano, fizemos um baile a fantasia e galeto para angariar fundos. Com a arrecadação, compramos presentes para doar às crianças”, frisa Marco. O morador aponta que nas edições seguintes foram surgindo novidades, como encenação do presépio vivo e apresentações artísticas. O próprio lugar para integração da comunidade mudou. Inicialmente na rua, por questão de segurança, o evento foi transferido para uma área disponibilizada por Carla Dihl Closs, outra voluntária.

O fundador do Pró-Natal argumenta que o grupo de voluntários se renova e, enquanto houver gente com disposição para colaborar, o projeto acontecerá. “É uma coisa muito bonita. Para muitas crianças, o único presente é aquele que doamos no dia. Então este trabalho se torna muito especial para nós”, afirma.

Através do Pró-Natal, voluntários garantem uma linda festa para a comunidade. Foto: Divulgação
Tags: área rural Gravataídistrito de Santa Tecla GravataíFamília BayerFamília Bitelofamílias da Santa Teclahistória da Santa TeclaIgreja Católica de Santa TeclaSanta Tecla
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