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Padre Fabiano | A liberdade de expressão não me dá o direito de zombar ou escarnecer da fé de ninguém

Fabiano Glaeser dos Santos por Fabiano Glaeser dos Santos
11 de fevereiro de 2022
em Especial
Padre Fabiano | A liberdade de expressão não me dá o direito de zombar ou escarnecer da fé de ninguém

Vereador Renato Freitas após invadir a Igreja durante missa.

Em outubro de 2020, duas igrejas católicas foram incendiadas em Santiago do Chile durante uma grande manifestação pelo primeiro aniversário do início dos protestos sociais em nosso vizinho. Para os católicos, ou para as pessoas que tem alguma sensibilidade, foram imagens bem fortes ver as duas igrejas ardendo sob as chamas que foram intencionalmente ateadas, com o intuito de destruir um local de oração, a casa de Deus para os cristãos. 

Pois bem, o que parecia distante, ou nem tão distante, tendo em vista o Chile ser país vizinho, chegou às terras brasileiras. No último dia 05 de fevereiro, o vereador Renato Freitas (PT), liderou uma invasão à Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Curitiba, como forma de protesto pelo bárbaro assassinato do congolês Moïse Mugenyi, no Rio de Janeiro. Isso mesmo: protesto, invasão, numa igreja. “Mas padre, a igreja não seria um espaço público, onde todos podem adentrar?” Sim, corretíssimo. 

Mas eles não adentraram, os manifestantes, portando bandeiras do PCdoB e do PT, interromperam a Missa celebrada pelo Pe. Luiz Haas, que informou aos veículos jornalísticos que o entrevistaram, que, ao tentar apaziguar a situação, foi chamado de “racista” pelos manifestantes. 

Uma vez interrompida a missa, o vereador Renato, líder da manifestação, fez um discurso afirmando que os assassinatos de pessoas como  Moïse Mugenyi teriam relação com a conivência de pessoas de fé católica a autoridades fascistas. Qual a relação de católicos de Curitiba com um assassinato ocorrido no Rio de Janeiro? Não consigo ver tal relação, e me parece que nem o vereador conseguiu explicar. 

O artigo 5º da Constituição Federal garante a todos os brasileiros liberdade de expressão e manifestação do pensamento. Após duas décadas sob um regime autoritário, que censurava quem manifestava um pensamento diverso ao do governo, a Constituição de 1988 nos garante liberdade de pensar e de manifestar esse pensamento. Vivemos num regime democrático, e faz parte da democracia a diversidade de ideias, o debate, o contraditório. 

O mesmo artigo 5º declara que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”. Portanto, todos tem direito de reunir-se em local público, e manifestar seu pensamento. Protestos pacíficos são de pleno direito, qualquer grupo, partidário ou não, pode reunir-se e protestar contra aquilo que não concorda. 

Até aqui, concordamos que não o ocorrido no sábado em Curitiba foi a manifestação de pensamento de um grupo: legítimo. Eles se reuniram na rua, um local público, para manifestar sua opinião e protestar contra um caso de violência bárbaro e exigir das autoridades uma atitude: legítimo. 

Até onde sabe não tinham armas: legítimo. Ai, entraram na igreja, interromperam a missa, gritaram palavras como “racista”, “fascista” – e eu faço a pergunta que tenho feito há muito tempo quando vejo alguém chamando outro alguém de fascista: alguma vez leram o Manifesto Fascista, escrito por Mussolini? Tiveram contato com algum escrito fascista? Conhecem a história do fascismo? 

O ato de invadir a igreja e interromper a missa foi, em primeiro lugar, um desrespeito aos trabalhadores católicos que ali estavam, que, após uma longa semana de trabalho duro, foram à igreja para rezar, para participar do ato mais importante para os católicos, que é a missa, o ápice das celebrações católicas, que é o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o carpinteiro, portanto, trabalhador de Nazaré. 

Desrespeito aos trabalhadores por parte de um vereador do Partido dos Trabalhadores. Acho estranho. Interromperam um ato de culto, mesmo com os pedidos do padre para que falassem mais baixo, ou esperassem a missa terminar; não atenderam os pedidos, e chamaram os que ali estavam de racistas e fascistas. Considerando que o maior público presente numa missa de sábado à tarde é de idosos, ele estava chamando um grupo de idosos de fascistas. 

O artigo 208 do Código Penal afirma que é crime impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. O grupo de manifestantes cometeu um crime previsto em lei. O que aconteceu não foi um protesto, nem manifestação, mas um ato de violência psicológica, um desrespeito à fé. Me parece que alguns grupos têm dificuldade de protestar de forma ordeira e pacífica, é preciso sempre destruir, quebrar, humilhar, deturpar igrejas, prédios públicos, e outras instituições. 

Quantas vezes vimos patrimônio público depredado em manifestações. Não é democracia, mas vandalismo, e até desrespeito à democracia. A liberdade de expressão do pensamento não me dá o direito de quebrar, destruir, zombar, ofender ou escarnecer da fé de ninguém.

 Algumas pessoas tem dificuldade de debater ideias sem ofender o debatedor; já vi isso inclusive nesse espaço, onde já fui chamado de “padre idiota”. Ninguém precisa –  e nem quero – concordar com tudo que escrevo. Mas me torno idiota por ter uma ideia diferente de quem está lendo? Por que as pessoas que estavam na igreja eram racistas ou fascistas?

Qual a relação do que ocorreu sábado em Curitiba com as igrejas incendiadas no Chile em 2020? Ou as autoridades tomam uma atitude séria, ou em pouco tempo teremos igrejas incendiadas no Brasil também.  Como católico, como padre, fiquei muito triste com a situação. 

Há muitas formas legítimas de protestar, não invadindo e impedindo que pessoas rezem. Chamar pessoas de racista, fascista, comunista ou nazista, sem prova, é, além de ofensa, crime, e, portanto, não é uma forma legítima de protesto. Rogo às autoridades competentes que tomem as medidas cabíveis, para que atos como esse não se tornem comuns no Brasil, e, dentro de pouco tempo, vejamos nos noticiários igrejas brasileiras queimadas e destruídas. 

Contudo, há em tudo isso um consolo. Jesus disse “O discípulo não é maior que o mestre; perseguiram a mim, perseguirão a vocês também.” E também: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mt 5, 11-13).  Assim, se me perseguem ou injuriam porque sou cristão, significa que estou mais parecido com Jesus Cristo, aquele a quem sigo e a quem consagro minha vida. 

Tags: ColunistasEm outubro de 2020Fabiano Glaeser dos SantosGiro De GravataíIgreja católicainvasãoPadre FabianoPadre Fabiano GravataíPT
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