
Após muitos meses ausente desse espaço privilegiado, imerso que estava em outras atividades que me tomaram muito tempo, retorno com minhas reflexões a partir do que observo no dia-a-dia. Espero não ser cancelado – porque a cultura do cancelamento está cada vez mais forte nos dias atuais. Mas, se for, problema de quem me cancelar. Vai perder meus textos, hehehehehe.
Está cada vez mais evidente a polarização que vivemos, não somente no país como no mundo, embora no Brasil, por suas características próprias, essa polarização tome proporções bem mais exacerbadas e apaixonadas. Ou se é uma coisa, ou se é outra, e quem tenta ter uma postura mais equilibrada, mais de centro, quem tente uma síntese, é acusado de estar em cima do muro, de ser indeciso. Está cada vez mais difícil emitir uma opinião – um dos motivos pelos quais fiquei alguns meses longe das colunas.
O que tem me chamado a atenção ultimamente é a quantidade de vezes que o nome de Jesus Cristo tem aparecido nas postagens de redes sociais para justificar uma ou outra posição. Quem é de esquerda, usa Jesus e seus ensinamentos para justificar seu posicionamento mais à esquerda; da mesma forma, quem é de direita, usa Jesus e seus ensinamentos para justificar seu posicionamento mais à direita. Inclusive uma postagem que vi hoje de manhã me chamou a atenção pela péssima comparação, mas com o intuito de justificar certo posicionamento político, que faço questão de transcrever para exemplificar alguns dos absurdos que tenho visto: “Ah, mas o Lula é um condenado. Meu querido, Martin Luther King, Nelson Mandela, Tiradentes, Mahatma Gandhi, Malcom X e ate Jesus Cristo foram condenados. O problema não são os condenados, mas sim, os interesses.” Veja bem que foi usada a expressão “até Jesus”.
Jesus comparado com Lula! Assim como foi comparado com Che Guevara, Carlos Marighela, e outros. A pergunta que me faço diante desse post e de outros que vi nos últimos meses é: essas pessoas conhecem os ensinamentos de Jesus? Já leram os Evangelhos? E, se leram, entenderam?
Ouso dizer que não, não conhecem ou não entenderam. O Papa Bento XVI, em sua Encíclica Deus caritas est, escrita em 2005, afirmou que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa.” O cristianismo não é uma ideologia, é uma Pessoa, Jesus de Nazaré, que não seguiu nenhuma ideologia.
Lendo os Evangelhos, especialmente Mateus, Marcos e Lucas, vemos que ele nunca se assumiu como messias, porque sabia que os judeus na época tinham ideias dissonantes de messianismo, e Jesus não queria ser confundido com nenhum desses projetos, uma vez que seu messianismo não era um projeto humano, mas divino. Ele está, e quer estar, acima das ideologias, porque as ideologias são projetos humanos, e muitas delas com visões distorcidas da realidade – aliás, os ideólogos, em sua maioria, não aceitam a realidade como ela se apresenta, seja ela qual for, e tentam adequar a realidade à sua teoria, custe o que custar, muitas vezes pela violência. Jesus não era um ideólogo.
Nenhum, enfatizo, nenhum sistema econômico ou político pode se arrogar o direito de dizer que é o que Jesus pregava. Já ouvi muita gente afirmando que Jesus era socialista, que as primeiras comunidades cristãs eram socialistas. Isso é um absurdo. Quem faz tal afirmação não conhece Jesus, as primeiras comunidades, tampouco o socialismo. Da mesma forma, há quem afirme que o capitalismo, ou a direita, ou o liberalismo, estão plenamente justificados por Jesus. Da mesma forma afirma que não, e repito: nenhum sistema político ou econômico, nenhum partido político pode se colocar como arauto do Reino de Deus. E justifico com a própria Escritura: “o Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.” (Rm 14,17).
À pergunta “para ser cristão de verdade, devemos ser esquerda ou direita?”, só há uma resposta possível: para ser cristão de verdade, eu devo viver os ensinamentos de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”; “sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Vivendo isso, seremos cristãos de verdade. Mas não diga que a esquerda, ou a direita, ou o centro, ou sei lá qual posicionamento no espectro político você siga, são mais ou menos evangélicos. E como um cristão faz para escolher um partido para se filiar, ou um candidato para votar? Simples: se for católico, leia a Doutrina Social da Igreja. Leia também os Evangelhos, compare com o programa de governo do partido, ou com as ideias defendidas, e faça sua escolha, e não tenha medo de mudar quando seu candidato, partido ou governante enveredar por caminhos que firam o Evangelho, porque o cristão não segue partidos ou políticos, mas Jesus Cristo.













