A maior catástrofe climática na história do Rio Grande do Sul afetou a toda população de alguma forma. Direta ou indiretamente, todos os gaúchos enfrentam os impactos das enchentes e a necessidade de reconstrução do estado. “Alguns foram afetados fisicamente e estruturalmente, perderam tudo. Mas todos foram afetados de alguma maneira. A economia não está girando. Eventos foram cancelados. E até quando vai isso? A gente não sabe, mas acredito que para a normalidade ainda vai levar um tempo”, relatou o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Gravataí (Sindilojas), José Rosa, ao Giro de Gravataí, em entrevista sobre o impacto da tragédia na economia local.

O empresário aponta que medidas emergenciais para assistir às pessoas diretamente atingidas surgiram em poucos dias, porém passadas algumas semanas, cresce a preocupação com a continuidade desse apoio e o cenário econômico, que mesmo antes das chuvas no RS já vinha um pouco retraído.
“Quando as pessoas estão organizadas, a coisa só vai, mas ninguém esperava o que aconteceu. O comércio se abasteceu no final de abril porque a primeira quinzena de maio é como o final de ano. Mas as vendas não aconteceram e não estão acontecendo”, comenta o presidente do Sindilojas, referindo-se às expectativas que o comércio de Gravataí tinha para o Dia das Mães. Assim como o Natal, a data costuma ser uma das melhores para os lojistas, todavia este ano foi muito diferente.
Conforme José Rosa, nota-se que os consumidores não se sentem seguros para gastar no momento, pois existem muitas incertezas quanto aos efeitos da catástrofe na economia. Esse comportamento, por sua vez, gera apreensão nos comerciantes, que também precisam arcar com despesas e se preocupam em manter empregos. O presidente do Sindilojas Gravataí estima que as expectativas dos lojistas vão se concentrar agora nas próximas datas comemorativas, Dia dos Namorados e Pais, e, especialmente, nos negócios (produtos e serviços) atrelados ao inverno.

A entidade, assim como diversas instituições, apoia a campanha para que os consumidores façam compras na cidade, fomentando os negócios locais e contribuindo para que Gravataí possa retomar o processo de desenvolvimento. Cientes da situação, muitos proprietários de lojas do município têm feito promoções e oferecido condições especiais de pagamento para que a população volte a comprar.
“O que mais precisamos no momento é de inteligência emocional, porque todos foram afetados e precisamos resistir a tudo o que estamos passando. A economia já vinha devagar e os empresários estão fazendo um grande esforço para manter seus funcionários. Precisamos ter aceitação, compreender e ficar firmes, seguros, tranquilos e com esperança de que tudo isso vai passar”, afirma José Rosa.

Os gaúchos que não fogem à luta
Desde a primeira semana de maio, quando as cheias históricas começaram a deixar rastros de destruição e milhares de desabrigados no RS, o que se viu foi uma grande corrente de solidariedade. Muitos gaúchos estenderam a mão para os conterrâneos e ajudas vieram também do resto do país e do exterior. As forças de segurança ganharam apoio da população para os resgates nas áreas inundadas. Com barcos, jet skis, jipes, helicópteros e, principalmente, muita coragem e força de vontade de quem foi para linha de frente dessa megaoperação, vidas foram salvas.
Na grandiosa rede de voluntários que passaram a resgatar, auxiliar em abrigos, doar tempo e recursos para ajudar as vítimas das enchentes estão muitos empresários de Gravataí e demais cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre. A história de alguns deles foi compartilhada esta semana na reunião da diretoria do Sindilojas. A instituição cedeu espaço em sua sede no Centro para voluntários preparem refeições e organizarem donativos para as famílias desabrigadas e desalojadas. Na noite da última terça-feira (28/5), na prestação de contas do trabalho desenvolvido no local durante 16 dias, voluntários relataram um pouco da experiência.

Diretora do Sindilojas, a advogada Eliane Fontoura contou como iniciou a mobilização, que rapidamente ganhou colaboradores. No primeiro momento, ela e o esposo, Francisco, decidiram comprar alguns itens para doação e preparar marmitas. A medida que amigos foram sabendo da proposta, o grupo foi crescendo. Em poucas horas, já eram dezenas de pessoas dispostas a contribuir.
Com produtos para o preparo de 500 marmitas, a advogada constatou que era necessário um espaço maior para cozinhar e organizar as embalagens para entrega. Pensou no Sindilojas. “Liguei para o presidente (José Rosa) e expliquei que precisava de uma cozinha para fazer as marmitas. Nem por um segundo ele questionou o que iríamos fazer, para quantas pessoas, nada. Ele liberou o espaço e começamos nosso trabalho no subsolo”, recordou.

O Sindimulher também se tornou apoiador do trabalho social, que mobilizou ao todo mais de 200 pessoas. No evento, um dos voluntários responsáveis pela arrecadação de recursos via Pix, Daniel Pisoni, relatou como foi a organização e aplicação da verba. Mais de R$ 82,7 mil foram arrecadados para compra de alimentos, embalagens e outros donativos básicos entregues nos abrigos. Em torno de R$ 100 mil foram recebidos em produtos. Com isso, mais de 82 mil lanches e marmitas foram distribuídos em cerca de 50 endereços de Gravataí, Cachoeirinha, Canoas, entre outras cidades. O coletivo, que começou preparando 500 refeições chegou a impressionante marca de quase 5 mil marmitas produzidas por dia, trabalho este que teve atenção especial da Família Melo e outros voluntários da cozinha.

Fundamentais nos resgates e para garantir que as doações chegassem a quem mais precisava, alguns representantes do grupo de jipeiros também compartilharam, na reunião do Sindilojas, momentos vividos nas últimas semanas. Cenários de guerra e muita tristeza foram descritos pelos voluntários, que também se arriscaram para chegar a algumas áreas. Everson Pereira, conhecido como Xizão, revelou que começou a ajudar as vítimas das chuvas na Vila Rica, em Gravataí, mas logo estava percorrendo toda a região, devido ao grande número de famílias atingidas. Desinformações causavam transtornos, idas e vindas, porém o voluntário destaca que todo o esforço valeu a pena, considerando-se o auxílio a tantas pessoas.
A solidariedade conecta pessoas. E isso foi exaltado pelo empresário André Beretta, de Canoas, em seu depoimento no Sindilojas Gravataí. Proprietário de uma empresa de marketing digital, ele declarou que estava em sua “bolha” com a família, em casa, quando as informações sobre as enchentes começaram a chegar. “Eu, assim como muitas pessoas, pensei que era só mais uma”, disse, acrescentando que não demorou a perceber que estava errado. Constatando a gravidade da situação na cidade, iniciou a arrecadação por Pix e de donativos. Em menos de 24 horas, a conta havia angariado R$ 50 mil. De lá para cá, muita ação: auxílio em resgates, entrega de donativos e movimentações para que cada vez mais autoridades soubessem do que estava acontecendo no estado.
“De coração, eu não fiz nada. Posso falar por qualquer um de nós, a gente não fez nada. A forma como as coisas aconteceram foi de um jeito que eu nunca vi nada acontecer na vida. As pessoas foram se unindo. Fez uma ligação para o presidente, apareceu uma cozinha. Fez uma ligação e apareceu mão de obra. Quando na nossa vida conseguimos mobilizar um time de produção de comida do dia para noite, com lugar, suprimentos, tudo? Nunca! Porque não somos capaz disso. Quem conectou todos nós foi Deus. Na verdade, a única coisa que a gente precisa fazer agora é tirar um pouco os nossos desejos, vontades, nosso ego da frente e continuar permitindo que Deus use a gente”, argumentou.
Ao término da apresentação dos voluntários, o empresário Marcelo Pirotto, também engajado nas ações beneficentes, salientou que a atuação incansável de todos é motivadora. “O que mais me chamou à atenção foi que não existiu ‘não’. Alguns faziam a linha de frente, outros a final, mas todos eram iguais. Se fosse uma empresa, seria a melhor do mundo, porque todos colaboraram”, comentou.
Retomada de eventos
Na reunião da diretoria, o Sindilojas Gravataí e o Sindimulher anunciaram a retomada de eventos nas próximas semanas. Estão previstas atividades para valorização do comércio local, ações beneficentes, bem como de incentivo à retomada da rotina com otimismo e esperança. Detalhes das programações serão divulgadas, em breve, pela entidade, porém já foram confirmados o Café Colonial do Sindimulher para julho e o Desfile Primavera/Verão para outubro. Também para julho é planejada a palestra “O que é impossível para você”, com Marcos Rossi, um exemplo de superação.
Foto de capa: Viviane Paim Mariot/Sindilojas Gravataí















