Oito anos após o crime brutal que chocou Novo Hamburgo e a Região Metropolitana, os corpos de duas crianças esquartejadas permanecem sem identidade e o caso continua sem solução. O episódio, registrado em 2017 e que teve repercussão internacional na imprensa, é considerado pela Polícia Civil como um inquérito sem elucidação e segue sem conclusão também no Ministério Público (MP).
Os restos mortais foram encontrados por um catador de material reciclado que desconfiou de caixas deixadas em um matagal às margens da Estrada Porto das Tranqueiras, no bairro Lomba Grande, região afastada e pouco habitada de Novo Hamburgo. Dentro delas, embalados em sacos de lixo, estavam troncos e membros, acondicionados em caixas de papelão de uma marca de sabão em pó que sequer era comercializada no Rio Grande do Sul.

Exames de DNA confirmaram que se tratavam de um menino de aproximadamente 8 anos e de uma menina de cerca de 12, irmãos por parte de pai. As cabeças, no entanto, nunca foram encontradas. Apesar de as digitais estarem preservadas, a consulta junto a bancos de dados estaduais e nacionais não resultou em identificação. Uma das hipóteses é de que as vítimas fossem de fora do Rio Grande do Sul, o que até hoje não pôde ser confirmado.
Versão de ritual satânico
A investigação ganhou contornos ainda mais polêmicos quando o então delegado interino da Homicídios, Moacir Bernardo Fermino, apresentou à imprensa uma versão que apontava para um suposto ritual satânico. Segundo o delegado, um líder religioso de Gravataí, chamado de “bruxo”, teria recomendado um sacrifício humano em troca de prosperidade, solicitado por dois homens que teriam pago R$ 25 mil pelo “serviço”.
Na coletiva, Fermino disse ter se baseado no depoimento de um “profeta”, apontado como seu informante. Objetos recolhidos nos locais investigados foram exibidos, mas nenhuma prova material foi apresentada de forma consistente. O delegado, que é evangélico, não detalhou os fundamentos técnicos da versão. Poucas horas depois, Rogério Baggio, então em férias, foi convocado a reassumir a Delegacia de Homicídios. Mais um suspeito chegou a ser preso, antes de uma nova reviravolta: a narrativa do ritual não passava de uma invenção.
Prisões revogadas e nova denúncia
Todas as prisões foram revogadas em fevereiro de 2018. A atuação da equipe de investigação passou a ser alvo de um inquérito na Corregedoria-Geral da Polícia, que resultou no indiciamento de três pessoas: o delegado Fermino, o inspetor Marcelo Cassanta e o informante Paulo Sérgio Lehmen.
O Ministério Público denunciou os três, e a Justiça acolheu a denúncia, que tramita na 2ª Vara Criminal de Novo Hamburgo. A acusação sustenta que a história foi inventada por Lehmen, repassada a Fermino, que elaborou um relatório usado como base para os pedidos de prisão. A Corregedoria apontou que as longas investigações e campanas relatadas no documento nunca foram realizadas.
O inspetor Cassanta teria inserido informações falsas, enquanto Fermino teria assinado três inclusões. Fermino e Lehmen também respondem por corrupção de testemunhas, acusados de prometer vantagens e inclusão em programa de proteção para sustentar a versão. O delegado Fermino acabou afastado e, posteriormente, aposentado voluntariamente. Paulo Sérgio Lehmen foi preso preventivamente, mas solto após decisão judicial. Já Cassanta não foi preso e segue em sua função na Polícia Civil de Novo Hamburgo.

Mistério que resiste ao tempo
Enquanto a Justiça avança sobre os responsáveis pela falsa acusação, o crime central segue sem solução. Quem eram as duas crianças? Quem as matou? Por que foram esquartejadas? Essas perguntas permanecem sem resposta, guardadas em um silêncio que o tempo só aprofunda. A Polícia Civil pede que qualquer nova informação sobre o crime pode ser repassada de forma anônima ao 181.














