
Foi em junho de 2015, na Operação Clivium, que um dos mais audaciosos planos de guerra na disputa de facções pelo comando do tráfico de drogas foi apresentado ao país. O ‘Caveirão da Morte’ era o veículo especial da facção comandada pelo residente da Rua da Ladeira, no bairro Morada do Vale II.
Sem os encostos traseiros, o Honda Civic foi adaptado com chapas de aço para fazer a proteção dos matadores em caso de um revide promovido pelos rivais, já que no Vale uma coisa era certa; “quando sai o caveirão, alguém ia morrer”, resumiu na época da apreensão o delegado Eduardo Hartz.
No porta-malas, um detalhe também chamava a atenção do veículo sedan de cor preta. Furos espalhados na lataria teriam sido feitos para escoar o sangue das vítimas. Três mortos já haviam sido identificados através de uma perícia feita pelo IGP. Entre as identidades estava a de Luís Antônio Oliveira Alves, o Godzilla – executado a tiros em abril daquele mesmo ano, no qual seu corpo foi localizado pela polícia no bairro Barnabé.
A delação e as revelações
Mesmo confirmando seu assassinato e sabendo para quem o ‘Caveirão’ servia, a polícia nunca tinha conseguido apontar e indiciar os responsáveis. No entanto, o caso, que estava parado na Delegacia de Homicídios de Gravataí foi retomado. Conforme o delegado Eduardo do Amaral, titular da Homicídios, a investigação analisou a delação premiada de dois traficantes ligados à Ladeira, e que aceitaram falar na época da Clivium com a condição da redução de suas penas.
Bastava a polícia apurar maiores detalhes e descobrir a motivação para a morte de Godzilla, já que ele seria um dos gerentes do tráfico e mantinha uma estreita relação com o ‘cabeça’ da organização criminosa de Gravataí. Em meio as delações, uma cita a traição de Godzilla com o patrão.
“Eles relatam que foi por conta de uma traição. O Godzilla começou a pegar droga de outro fornecedor e passou a vender, só que estava vendendo no território da Ladeira. Quando descobriram o patrão mandou o matador, responsável por operar o caveirão, executar Luís Antônio (Godzilla)”, conta Amaral, que já encaminhou o inquérito ao judiciário.
Para o delegado, o indiciamento por homicídio qualificado do chefe da Ladeira e de seu matador evita a impunidade e contribui para o enfraquecimento das organizações criminosas. “Primeiro é importante para mostrar que este crime não ficou impune, que a justiça foi feita. Outro é o enfraquecimento das facções, que conseguimos auxiliar para que estes dois, que são de alta periculosidade, permanecessem presos”, finalizou Amaral.
A maior operação policial da história de Gravataí

A Operação Clivium foi desencadeada na manhã do dia 25 de junho de 2015 com o objetivo de desarticular uma das maiores organizações criminosas da Região Metropolitana. Comandada pelo morador da Rua da Ladeira, a Clivium (ladeira em Latim), teve sua investigação montada em 11 meses e contou com o apoio de 612 policiais, terminando o ano como a maior operação da história de Gravataí, e a maior da última década no RS. Ao todo, 107 mandados de prisão foram cumpridos e 60 pessoas foram presas. Entre eles, gerentes, vendedores e matadores da facção.
Foram recolhidos também um caminhão cegonha, cinco motos e mais seis carros, incluindo veículos de luxo e blindados. Ao todo, a Justiça autorizou o sequestro de 30 veículos ligados a integrantes do bando. A suspeita é de que os automóveis eram utilizados como forma de lavagem de dinheiro. O chefe da Ladeira segue preso na Cadeia Pública de Porto Alegre.














