
Amanhã (13) milhares de formandos e bachareis em Direito farão a temida prova de aprovação para a Ordem dos Advogados do Brasil. Obrigatório para exercer a advocacia no país, o exame será mais uma etapa a ser vencida pela servidora de Gravataí Patrícia Lisboa, de 38 anos. A formanda, que possui deficiência visual, pretende avaliar a prova. “O objetivo inicial é conhecer e entender os recursos de acessibilidade que são disponibilizadas no exame. Mas uma aprovação, assim de primeira também é bem-vinda”, projeta.
Patrícia não nasceu com a deficiência, mas perdeu a visão por um erro médico, quando ainda tinha dois anos de idade. Com uma infecção no ouvido, ela teve febre alta e foi levada ao hospital, em Canoas, pelos pais. No atendimento, a paciente recebeu Dipirona, medicamento ao qual é alérgica. Como consequência, ela desenvolveu Síndrome de Steven Johnson, uma doença rara e pouco conhecida na época.

“Passei muito tempo em hospital, a pele ferida como uma queimadura de terceiro grau, risco de infecção generalizada e por fim a queima da retina do olho. O resultado da síndrome, não tenho lágrimas e assim não tem como manter uma córnea viva”, relata. Aos pais, os médicos diziam que Patrícia estava com sarampo. A paciente foi removida ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, onde a síndrome foi diagnosticada e a medicação interrompida.
História com a Justiça é uma de suas motivações
Na época, os pais de Patrícia iniciaram um processo na Justiça. “Já temos sentença favorável de indenização por todos os danos que me causaram, mas a grande dificuldade é fazer cumprir uma sentença contra grandes instituições nesse Brasil”, revela a formanda. “A justiça é tão absurda nesse país que pelo meio do meu curso tentando aprender com o meu próprio processo, descobri que o Fórum de Canoas havia perdido o meu processo, então constitui nova advogada e conseguimos colocar nos trilhos tanto descaso”, completa.
A sua história na Justiça foi uma das motivações para seguir o caminho do Direito. “Acredito que essa gana que o meu processo me deu e me dá é o meu grande estágio para trabalhar pelos processos dos meus futuros clientes!”. Mas a formanda também teve outros indicativos de que este seria seu rumo, mesmo que tenha tentado outras opções.
“A mãe sempre disse que eu seria juíza e na rebeldia da adolescência, tentei fazer faculdade de administração com ênfase em gestão pública. Passei no vestibular da UERGS, mas por falta de acessibilidade, desisti. Logo depois meu pai teve câncer e para cuidar dele iniciei a faculdade de psicologia. Assim que ele faleceu, eu também desisti.
E foi então que me achei em 2015 no curso de Direito”, narra.

Servidora em Gravataí desde 2009, Patrícia é a mãe dos gêmeos Yasmin e Gabryel, de 15 anos, e preside a Associação das Pessoas com Deficiência Visual e Amigos de Gravataí (ADVA). Em 2016, venceu um câncer de mama, passando por cirurgia de mastectomia, quimioterapia e radioterapia e dois outros procedimentos nos pulmões. Ela continua com o tratamento permanente, já que tem uma predisposição genética para câncer.
A prova que realizará será apenas mais uma batalha entre tantas que a estudante já enfrentou. “Agora meu mais novo desafio é conhecer e buscar aprovação no exame da Ordem”.












