Eu sou jornalista de formação. Passei anos da minha vida aprendendo a colocar a informação dentro de caixas estruturadas, lendo teleprompter e lapidando frases para que elas coubessem no tempo exato de um bloco de notícias. O roteiro era o meu porto seguro.
Até que uma jornalista me deu a dica que iria mudar a minha vida, só que 12 anos depois. Ela disse: “Entenda a notícia, elenque as principais palavras-chave e divida em blocos.”
Na época, absorvi aquilo para o factual da profissão. Mas foi só mais tarde, quando mudei de lado e passei a desenhar a comunicação de marcas e pessoas no mercado digital, que o gesso finalmente rachou. Eu percebi que aquela frase não era um conselho de redação; era a chave para a liberdade de comunicação de qualquer profissional.
Hoje, quando os meus clientes me perguntam se no estúdio tem teleprompter, a minha resposta é curta: não tem, porque eu sou contra.
Pensa comigo: você lembra dos políticos no horário eleitoral gratuito? Aquelas figuras engessadas, com os olhos correndo de um lado para o outro da tela, claramente lendo um TP enquanto tentam fingir naturalidade. Você votaria neles? Você realmente acreditaria neles? A resposta é não. E adivinha só: quando você tenta ler um roteiro na frente da câmera para vender o teu produto, o teu cliente sente exatamente a mesma coisa. É igual.
Lembro do pânico nos olhos de um cliente quando tirei o papel das mãos dele minutos antes de a câmera ligar. Ele tinha decorado cada vírgula. Sabia exatamente quando sorrir e quando fazer a pausa. Estava perfeito. Uma performance impecável. E absolutamente fria. Parecia um robô tentando convencer humanos de que tinha sentimentos.
Quando proibi aquele roteiro e resgatei o conselho de doze anos atrás — focando na estrutura, nos blocos e na essência —, o jogo mudou. Disse a ele: “Esquece o papel e me conta, olhando no meu olho, por que você acorda todo santo dia para fazer esse negócio dar certo?”. O tom de voz mudou, os olhos brilharam e o carisma apareceu. O vídeo virou desejo imediato de compra.
O mercado atual vive uma hipocrisia. Nas palestras e nos posts, todo mundo defende o marketing humanizado, as conexões reais e o olho no olho. Mas basta a primeira meta de vendas apertar para essa mesma galera correr para a internet e comprar um “pack com 100 scripts prontos que vendem milhões”.
O resultado está na sua linha do tempo: um mar de iguais. Todo mundo abrindo o vídeo com o mesmo gancho, usando os mesmos gatilhos mentais baratos e terminando com a mesma chamada para ação engessada. O roteiro tradicional virou um esconderijo. As pessoas se escondem atrás de frases prontas por medo de errar uma concordância, por pavor de gaguejar ou por achar que não são interessantes o suficiente sendo quem são.
Só que as pessoas estão exaustas de performances. Elas farejam o comercial ensaiado de longe. O público não quer o perfeito; ele quer o presente. Ele quer a verdade de quem domina o que faz e não precisa de uma muleta para provar isso. Quando você abre mão do script e assume a conversa, o seu cliente finalmente te escuta. E o seu faturamento agradece, porque a confiança não se terceiriza em um arquivo de PDF baixado por R$ 29,90.
Aprender a falar com segurança não é dom, é método. É entender a estrutura para dominar a mensagem, mantendo a técnica viva, mas sem deixar que ela engula a sua personalidade. No fundo, quem precisa de legenda pronta é filme estrangeiro, não quem lidera o próprio negócio.
*Yasmine Santos é jornalista e especialista em Marketing Estratégico, com especializações em Jornalismo Digital, Marketing Digital e Lançamentos Digitais. Também é fundadora da Cinescópio Produções e apresentadora dos programas Notável Podcast e Pod Assar. Atua como idealizadora de projetos de comunicação, liderando campanhas que conectam marcas, empresas e pessoas através da autenticidade.














