
Quando fui comunicado pelo Arcebispo de Porto Alegre, em outubro de 2014, que seria pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças em Gravataí, fui tomado de surpresa. Eu, um padre com menos de um ano de ordenação, à frente de uma paróquia referência como essa, com um povo vibrante e alegre, com muitas pastorais, muitos movimentos, comunidades. Estaria eu à altura de tão grande missão?
Na época trabalhava em Camaquã, e, numa das missas de despedida, encontrei um casal de Cachoeirinha que estavam visitando parentes, e, ao final da missa, vieram falar comigo. Perguntaram onde eu trabalharia, ao que respondi “Paróquia Nossa Senhora das Graças”. Os dois se entreolharam, e me questionaram onde ficava tal paróquia. Eu respondi: “na parada 72” “Ah, o senhor vai trabalhar na igreja da 72”. Primeira lição: “as pessoas chamam de igreja da 72!”

Após quase 6 anos vivendo na aldeia, eu já me peguei muitas vezes dizendo “a igreja da 72”. É uma marca. De fato, a igreja se destaca na 72, imponente, alta. Descendo a Dorival em direção à Cachoerinha ou subindo para o centro, de longe se vislumbram suas torres. Da mesma forma, quando subimos na parte alta dos bairros em redor, ela se destaca na paisagem. É já um patrimônio do Bairro São Geraldo, que está celebrando 40 anos de inauguração.
Tudo começou com uma pequena igreja de madeira inaugurada em 18 de janeiro de 1953, num barranco, no local onde hoje é o salão paroquial. Quatro anos depois, essa capela foi elevada à categoria de igreja matriz da Paróquia Nossa Senhora das Graças. Os moradores, liderados pelos padres que foram se revezando na liderança da comunidade, sonhavam construir uma igreja maior, com porte de igreja matriz.
Pelas dificuldades financeiras da população e da paroquia recém criada, construíram um prédio de alvenaria um pouco maior (atual Centro Catequético Mãe das Graças). A Vila São Geraldo, pela sua localização – à beira da estrada que ligava Gravataí a Porto Alegre, atual Avenida Dorival – crescia rapidamente, crescimento que foi intensificado pela instalação do distrito industrial, na década de 70.
À época, a paroquia era liderada pelo Pe. Osmar Kist, que, percebendo a chegada de muitos novos moradores, tomou a peito a tarefa de construir a matriz definitiva. Assim, motivando os paroquianos, que, imbuídos de fé e assumindo seu protagonismo na Igreja, iniciou a campanha para arrecadação de recursos.
Fruto do empenho, suor e oração dos moradores do bairro, no dia 24 de agosto de 1980, um ano após o início das obras, o Arcebispo de Porto Alegre, Cardeal Vicente Scherer, inaugurou a nova igreja matriz de Nossa Senhora das Graças. Segundo relato do próprio Pe. Osmar, “o dia há tempo esperado; a data tão desejada pelos paroquianos, finalmente, raiou: 24 de agosto de 1980. Muitas senhoras diziam que não veriam a Igreja em pé antes de morrer. E ei-la pronta e elas vivas, participando da inauguração…Houve durante o dia festejos populares.”
Em seu interior, três grandes painéis representando o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus, pintados pelo Ir. Nilo de Novo Hamburgo. A ideia é propiciar ao povo uma catequese com os momentos mais importantes da vida de Jesus Cristo.
Os templos são a expressão de fé do povo, que vê nesses locais sagrados o espaço para o encontro com o divino. Todas as grandes religiões, cristãs e não-cristãs, têm seus templos, e mesmo as chamadas religiões tribais, que não tem templos, utilizam de algum espaço, que se torna sagrado, para cultuar seu ou seus deuses. Podemos conversar com Deus em qualquer lugar, porque o encontro com o divino se dá em primeiro lugar na nossa interioridade, mas é interessante que, como dito acima, parece ser uma necessidade humana a construção de um lugar específico para isso. Esse é o objetivo de uma igreja: ser um espaço de encontro com o sagrado.
Como padre, estou muito feliz de poder participar desse momento importante na vida desse povo. Vivo aqui há menos de seis anos, mas já me sinto em casa. Não estou celebrando os 40 anos da igreja onde trabalho, estou celebrando os 40 anos da minha casa. Sim, minha casa, porque é assim que me sinto na igreja da 72. Cada gota de suor derramada em prol da construção dessa igreja faz com que aquele que derramou esse suor se torne um pouco proprietário. Já derramei suor e lágrimas nessa igreja na minha missão de sacerdote, por isso digo com muita confiança: aqui é minha casa!
Que Deus abençoe todo o povo da Paróquia Nossa Senhora das Graças pela passagem dos 40 anos de inauguração da sua igreja matriz, e agradecemos a todos que se empenharam para que esse sonho se tornasse realidade.












