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Roquistas #18 | Carlos Maltz: “A cada trocentos anos aparece um Humberto Gessinger, eu tive a sorte de tocar com ele”

Jornalismo - Giro de Gravataí por Jornalismo - Giro de Gravataí
17 de julho de 2020
em Entretenimento
Roquistas #18 | Carlos Maltz: “A cada trocentos anos aparece um Humberto Gessinger, eu tive a sorte de tocar com ele”

Formação clássica dos Engenheiros com Augusto Licks (E), Humberto Gessinger (C) e Carlos Maltz (D). Foto: Divulgação

 

Após a publicação da primeira parte da entrevista com o Carlos Maltz, algumas pessoas questionaram o motivo para dividir a conversa. Explico: durante quase uma hora, o eterno baterista dos Engenheiros do Hawaii respondeu, pacientemente, aos meus questionamentos. Em um processo jornalístico tradicional, eu escolheria alguns tópicos, e publicaria as principais ideias. Não poderia publicar tudo, é muito extenso e, provavelmente, cansaria o leitor. Mas, pessoalmente, gostei muito da conversa, então, optamos por dividir o conteúdo para poder compartilhar mais com o público o papo que tivemos.

Hoje, trago um pouco do que falamos sobre a experiência de 10 anos  de Matlz como um Engenheiro do Hawaii. O ex-estudante de Arquitetura falou sobre a química no trio GLM, a diferença que o Augusto trouxe para a banda, a genialidade do Humberto. Tudo com o olhar que só a distância do tempo pode oferecer. Como fã de Engenheiros, espero que a leitura seja tão interessante ao leitor quanto foi para mim ouvir o Maltz falar.

Roquistas: Durante 10 anos, vocês tiveram uma sequência de shows muito grande e ao mesmo tempo, o lançamento de quase um disco por ano. Como conseguiam manter um processo de criação com a rotina de shows?

Carlos Maltz: A gente tovaca muito ao vivo. A gente não teve muito tempo para se preparar. Eu não tive muito tempo como instrumentista, quando fui ver, já estava tocando três vezes por semana, quatro vezes por semana e foram 10 anos assim.

Os 10 anos eu que fiquei na banda foram nesse ritmo. Se por um lado, a gente não tinha tempo para estudar, por outro, a gente tocava muito ao vivo. E a gente estava sempre mudando as coisas, hoje quando eu assisto vídeos dos engenheiros, me incomoda um pouco a minha falta de técnica da bateria.

Por outro lado, não me surpreende a interação da banda, é impressionante como a gente tocava. Era uma engrenagem mesmo. O time que jogava junto, até hoje me impressiona. Era muito criativa a banda e tinha muita integração.

Roquistas: E em qual das formações tu sentia mais esta integração? Boa parte dos fãs prefere a era GLM, mas e para ti?

Carlos Maltz: A que a gente conseguiu mais foi no GLM, do A Revolta dos Dândis até o Filmes de Guerra, Canções de Amor. O Longe Demais das Capitais (lançado com Marcelo Pitz no baixo e ainda sem a presença de Augusto Licks) era um disco muito bom, tinha toda essa característica, mas era uma banda mais comum, mais da época, soava mais parecido com as outras bandas da época.

Do A Revolta dos Dândis para frente, até o Filmes de Guerra, Canções de Amor, a gente conseguiu adquirir uma identidade própria, muito diferente das outras.

A gente andou pra trás, cronologicamente, Longe Demais das Capitais é de uma banda dos anos 80, e no A Revolta dos Dândis a gente passou a ser uma banda dos anos 70. Então, a formação que mais marcou foi essa, foi o GLM; Foi a banda arquetípica, a banda que ficou marcada no inconsciente coletivo do pais.

Depois, a gente não era mais uma banda. era um bando de gente tocando, mas não tinha mais aquela característica.

Roquistas: Na época, tu conseguia ter noção do tamanho de Engenheiros do Hawaii no Brasil?

Carlos Maltz: Não, hoje é que eu consigo. Hoje eu olho e digo “a gente foi grande”. Antes, a gente tava como um trem bala, aqueles que andam a 400 por hora, então, nós pegamos o trem e fomos.

Lembro quando a filha do Humberto nasceu e nós estávamos um dia no carro, eu e ele. Aí ele falou: “eu tenho que comprar uma fralda para a Clara”. Ele abriu a carteira dele, aí tinha nota de um, de 10, de 50, de 100. Ele perguntou: “tu tem noção de qual das notas é para comprar este negócio?”.  Eu disse: “não, nenhuma”.

Eu não tinha noção do tamanho que a banda tinha no país. Nós andamos o Brasil inteiro, conheço todos os hotéis, aeroportos. Agora, não saía em lugar nenhum, não dava para sair na rua em nenhuma cidade que a gente ia. Tinha um nível de exposição absurdo. Até hoje, eu saí em 95, quase 30 anos, e até hoje é impressionante

Roquistas: E qual foi o diferencial dos Engenheiros? O que possibilitou que vocês tivessem todo este alcance?

Carlos Maltz: A cada trocentos anos aparece um igual ao Humberto Gessinger, eu tive a sorte de estar tocando com ele.

Roquistas: E o que a chegada do August  representou. O que mudou com o ingresso dele na guitarra?

Carlos Maltz: O que ele trouxe não foi só uma questão de qualidade musical, mas de diferença musical. O Augusto tocava diferente dos guitarristas da nossa geração. Então, quando a banda passa a ter o Augusto como guitarrista, você não consegue comparar Engenheiros com nenhuma outra banda. A gente passou a ser um caso a parte. Tinha toda a questão das composições do Humberto, e acho que as composições são mais importantes, mais fortes ainda do que as letras e tinha o diferencial do Augusto. Não só a questão da qualidade técnica, o Augusto era melhor do que nós enquanto músico. Ele era profissional, a gente era estudante de arquitetura. Ele já tocava com o Nei Lisboa
Ele tinha uma influência muito diferente da nossa geração. Não tem com quem você comparar, Frejat, Legião, Edgar Scandurra.

E isso só pôde acontecer depois que a gente apareceu com o Longe Demais das Capitais, que era um disco mais convencional. Se a gente aparecesse como A Revolta dos Dândis, não iria acontecer nada. A gente ia passar totalmente desapercebido. Mas a gente já existia e os caras da gravadora não tinham nem noção do que tava acontecendo. Eles ficaram sabendo que tinha mudado o guitarrista na audição do disco gravado. Se não fosse isso, nunca nós teríamos feito A Revolta dos Dândis. Eles Achavam que ia ser um fracasso absoluto de vendas.

Roquistas: Tu comentou sobre as composições serem até mais importantes do que as letrar. Isto explica o sucesso dos shows em países que não falam português?

Carlos Maltz: Aí já é outra coisa. É a banda ao vivo. Quando você vai tocar no Japão, na União Soviética ou no interior do Maranhão, a banda ao vivo é o grande lance. O poder de uma banda ao vivo, assim a química que acontece entre as pessoas e a comunicação que a banda consegue estabelecer com o público, isso é uma mágica, não tem fórmula.

A genialidade do Gessinger é indiscutível. Inclusive como presença de palco. O Augusto trouxe uma coisa muito diferente. Mas a química da banda, por isso que eu continuo acreditando que a gente ainda pode se reunir e tem algo muito importante para dar para essa geração nova e para o Brasil do jeito que tá…

Roquistas: Neste momento, Maltz e eu começamos a conversar sobre o desejo dele te tocar novamente com Humberto e Augusto, as possibilidades que ele vê para isso e o que poderia acontecer. Também falamos sobre a saída dele dos Engenheiros e sua carreira solo. Como eu disse no começo, são muitos assuntos que merecem ser lidos, por isso, na próxima edição do Roquistas, trago a última parte da entrevista.

Tags: Augusto LicksCarlos MaltzEngenheiros do HawaiiHumberto Gessinger
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