A água que nos banha, a água que nos lava, a água que nos limpa. A água que sacia nossa sede é a mesma água que nos tripudia, que nos deixa em desespero, que nos deixa em alerta.
A água devasta, rompe, invade e inunda, e não toma conhecimento, enchendo espaços para esvaziar as vidas e tudo que elas possuem, ainda que seja pouco, mas o suficiente para causar um estrago irreversível, um dano sem precedentes.
A água que nos benze e nos alenta é também a mesma água que causa dor, medo e solidão.
A água é uma fortaleza, força combativa da natureza, sejam ela cachoeira, ribanceira, lago, estuário, diques ou apenas um córrego.
A água que traz luz e esperança, também é ela que, em excesso, traz consigo uma sensação de impotência, medo e desilusão.
É ela quem nos deixa sadios, mas também é ela quem causa pânico e destruição. A água que traz vida é também, muitas vezes, quem leva à morte.
A água rompe, invade e inunda sem tomar conhecimento e sem aviso prévio, desdenha de barricadas e afronta os muros.
A água é o bem e o mal, água que parece querer bradar ao mundo:
“Eis-me aqui e vim para ficar nos espaços que a mim foram destinados e que me tomaram.”
Então, a água parece ter vindo para um acerto de contas, tardiamente e em momento inoportuno, sem regras e sem medir esforços, revolta e irada para cobrar uma conta que infelizmente é de todos nós.
Ao fim, a água parece ter nos deixado um claro e preocupante recado: “vejam o que eu posso fazer!”.
Foto: Prefeitura de Gravataí














